"Esclarecer.. . interioriorizar "
Escrevo-te como dizes que faço — diretamente, sem véus, sem disfarces, sem o conforto das meias-palavras. Escrevo porque, no domingo, me vieram contar que há pessoas a pagar pelos meus supostos pecados contra ti, como se a minha sombra tivesse atravessado portas que já fechei há muito. E confesso-te: não acreditei de imediato. A história já tem barbas brancas, teias nos cantos e poeira suficiente para não merecer ser soprada outra vez.
A minha resposta continua a ser simples e limpa:
não quero saber disso, e lamento que o simples facto de um dia me teres conhecido te esteja agora a lesar.
Se ajudar deixemos de falar.
A vida tem portas — abre-se ou fecha-se.
Não dramatizo o mecanismo.
E por mais que te custe ouvir, não és tema de conversa.
Não és presença nem ausência discutida.
És apenas alguém que passou e que, por insistência própria, ficou presa num eco que já não existe do meu lado.
E escrevo este texto apenas para saber se realmente vens aqui ler, se te revês nisto, se encontras mais um pretexto para te fazeres vítima de uma história que nunca construí contigo. Porque, ao longo de tudo isto, há uma verdade que parece escapar-te:
não sabes quem eu sou. Nunca soubeste. E eu paguei por isso.
Paguei com a minha paz, a que me retiraram, com o massacre.
E, mesmo assim, continuas a querer que eu volte ao caminho antigo — aquele que doeu, que pesou, que me diminuiu.
Mas eu não volto.
Eu não repito.
Eu não me dobro.
As feridas ensinaram-me.
A dor amadureceu-me.
E como dizia Shakespeare,
“as alegrias da vida passam depressa, mas a dor traz a sabedoria que fica.”
E ficou.
Tu criaste uma versão de mim que nunca existiu.
Tentaste moldar-me como se eu fosse barro nas tuas mãos — mas não sou.
A minha luz e a minha sombra não dependem de ti.
A minha dualidade não se submete à tua narrativa.
E por isso digo-te, com dureza e doçura ao mesmo tempo:
não cabe em ti definir-me.
Não cabe em ti diminuir-me.
Não cabe em ti decidir quem sou.
O que faço, o que digo, o que escrevo —
é para crescer.
Não é para te ferir, nem para te seguir, nem para te provar nada.
E, pela primeira vez, vou dizê-lo à tua medida:
estou a fazer por ti o que tu nunca fizeste por mim —
estou a assumir tudo o que quiseres, mesmo sem ter feito.
Estou a pedir perdão e a dar-te a mão à distância,
não por culpa, mas por compaixão.
Quando te pedi perdão cara a cara, não foi para que me absolvesses.
Foi porque eu já tinha feito as pazes comigo.
Quis apenas que soubesses que tens qualidades que escondes de ti mesma.
Eu disse-as tantas vezes — tu é que nunca as acreditaste.
E digo-te agora, sem poeira de delicadeza:
não mudes para pior.
Não te armes da frieza que finges ter.
Não te encolhas na caricatura que criaste para sobreviver.
Muda para melhor.
Por ti.
Não por mim.
Esquece-me.
Avança.
Segue.
Eu sou irrelevante na tua vida — aceita essa leveza.
E agora, a verdade mais dura e mais bela que posso oferecer-te:
Eu não perdi nada.
Só se perde o que realmente nos pertence.
Só se perde o que é verdadeiro.
Só se perde o que se sente.
E sabes tão bem quanto eu que nada que seja autêntico se larga da noite para o dia.
Se tivesses sentido o que dizes que sentiste, terias protegido.
Tinhas acarinhado.
Tinhas escutado.
Mas não o fizeste.
E isso não te faz má —
faz-te humana, falível, como todos nós.
E digo-te isto com doçura que não esperas e firmeza que talvez mereças:
Acredita em quem és.
Não deixes que a sombra do meu nome te derrube.
Não vivas a definir-te por aquilo que dizes que fiz, disse ou faço.
Tu és mais do que isso.
E se precisares de mim como vilã da tua história —
eu assumo o papel.
Se isso te liberta, se isso te devolve paz,
então que assim seja.
Eu carrego esse peso sem protesto, porque já me libertei dele.
Mas liberta-te tu também.
Liberta-te de mim.
Liberta-te da narrativa.
Liberta-te dessa obsessão silenciosa que te prende mais a ti do que alguma vez me tocou.
Eu não vou falar de ti.
Não vou perguntar por ti.
Não vou tentar saber de ti.
Porque, apesar de tudo, respeito-te.
E rezo por ti — mais do que imaginas.
Rezo pela tua luz que tu própria escondes,
pela tua sombra que te assusta,
pela tua humanidade inteira.
Rezo para que o teu coração se limpe,
para que encontres paz,
para que o peso que colocaste em mim se dissolva
e para que, finalmente, vivas. Vive plena e feliz!
Esta é a carta final.
É dura.
É doce.
É poética.
É tua — e minha.
E liberta as duas.
Vai.
E sê feliz — de verdade.
E se o que eu escrevo te magoa, fere. Não venhas a este espaço. Nunca, mas nunca foi minha intenção magoar-te. Eu sei que o fiz naquela altura em que estava magoada e com raiva o fiz, mas não foi a minha intenção.
Desejo que sigas feliz, realizada, autêntica e em paz.
Comentários
Enviar um comentário