"O nome que ela deixou no ar"

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No dia em que partiste, mãe,
o mundo não acabou —
mas perdeu o som.
E eu fiquei ali, entre o teu último suspiro
e o primeiro segundo
de um universo sem ti.

Fiquei com a tua mão na minha face,
fria, imóvel, sagrada,
como quem diz pela última vez:
“filha, eu estou aqui.”

E eu, caída no teu peito,
tentei devolver-te o calor
com o meu pranto.
Mas o frio do teu corpo
passava para a minha pele
como a noite que invade uma casa
onde antes havia luz.

Eu repetia sem fôlego:
“O que faço agora?”
E a pergunta tremia no ar,
sem teto, sem chão,
como uma criança perdida
num corredor escuro.

Mas antes… antes de partires,
tu olhaste para mim
com aquele dom que só as mães têm
de ver o invisível.
Sorrias como quem abre uma porta
e disseste:
“Estás grávida.”
E deste ao teu neto
o nome que ele levaria para a vida inteira.
Um nome soprado por ti,
antes de qualquer exame,
antes de qualquer certeza,
antes do adeus.

E então foste, mãe.
Foste como um barco que solta as amarras
e desaparece no nevoeiro.
E eu fiquei na margem
com os braços vazios
e a alma aberta como uma ferida
que insiste em não fechar.

Mas dentro de mim,
pequeno, silencioso, corajoso,
crescia o milagre que tu anunciaste.
O teu último presente.
A tua última profecia.
A vida que me puxou de volta
quando eu já não sabia respirar.

E assim eu aprendi
que a dor e o amor
são feitos da mesma matéria —
só mudam de nome.
Que a perda não é ausência completa,
é presença em forma de eco.
Que a tua voz vive em mim
todas as vezes que o teu neto sorri
sem saber que carrega
o nome que tu escolheste
no limiar do adeus.

Hoje, mãe,
onze anos depois,
eu ainda choro.
E agradeço.
Porque cada lágrima é uma parte tua
que ainda me abraça.

E eu prefiro a dor à ausência,
prefiro o pranto ao esquecimento,
prefiro este nó na garganta
a viver num mundo
onde o teu último abraço
não existiu.

Tu foste.
Mas o amor ficou.
E o amor —
o amor não morre.
Nunca.
Nunca.

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