"Monstros"

 Quando era pequena sempre disseram-me que os monstros não existem. Mas é mentira.

Eles existem — e andam com máscaras. Disfarçam-se de boas pessoas, aprendem a sorrir na altura certa, a abraçar com a medida certa, a dizer as palavras certas… e, ainda assim, deixam um frio estranho quando passam por nós. Não vivem debaixo da cama — vivem bem à vista, nas salas de estar, nos corredores do trabalho, nas mesas de família, às vezes do nosso lado na fotografia.

Os monstros de que eu falo não têm garras nem dentes afiados. Têm silêncios que ferem, ironias que se colam à pele, olhares que diminuem. São especialistas em manipular, em virar o jogo, em fazer-te acreditar que a culpa é sempre tua. Pedem-te que confies, depois retiram-te o chão — e perguntam, admirados, porque não sabes voar.

São monstros educados: sabem “bom dia”, “desculpa”, “eu só queria ajudar”. Mas a ajuda deles cobra juros altos. Aproximam-se quando estás frágil, aprendem os teus medos de cor, fazem inventário das tuas cicatrizes — e usam tudo isso como manual de instruções. Alimentam-se de dúvidas: quanto mais te questionas, mais crescem.

Há monstros que se vestem de amores impossíveis, outros de amizade perfeita, outros de autoridade benevolente. E é por isso que enganam: porque chegam com promessas, com elogios, com um colo que parece casa. Só mais tarde percebes que o colo era jaula.

Ninguém nos ensinou que monstros também podem cheirar a perfume caro, ter boas notas, carreira de sucesso, conversa brilhante. Ninguém nos disse que monstros podem dizer “amo-te” com voz doce — e, ao mesmo tempo, esvaziar-te devagar, sem gritar, sem bater, sem deixar marca visível. A pior violência é muitas vezes a que não se vê: a que te convence de que estás a exagerar.

Mas há um segredo que a criança dentro de nós precisa de ouvir:
não és tu que és pequena — são eles que vivem de diminuir os outros.

Hoje já não peço que me provem que monstros não existem. Eu sei que existem. Vi-os, senti-os, sobrevivi-lhes. O que peço é outra coisa: que aprendamos a reconhecer as máscaras, a confiar naquele desconforto que não sabemos explicar, a escolher distância sem culpa. Porque proteger-se não é egoísmo: é amor-próprio em estado adulto.

E também é verdade isto: nem todos os monstros estão lá fora. Às vezes, existe um pequeno dentro de nós — feito de medo, de velhas vozes, de feridas que ficaram por cuidar. Não para nos destruir, mas para ser finalmente visto e curado.

Hoje, se me perguntarem, direi sem hesitar: sim, os monstros existem.
Mas também existimos nós — com consciência, com limites, com coragem para tirar as máscaras do mundo e as nossas próprias. E, quando isso acontece, algo muda: o medo encolhe, a clareza cresce e a menina assustada percebe, finalmente, que já não está sozinha na cama escura.

Os monstros existem — mas já não mandam em mim.

Quando era pequena, repetiam-me com a candura dos contos de embalar que os monstros não existiam. Hoje sei que essa ternura era uma ficção higiénica. Os monstros existem — e não vivem em grutas nem se escondem debaixo da cama. Circulam entre nós com desenvoltura urbana, frequentam almoços de família, reuniões de direcção e assembleias respeitáveis. Usam perfumes caros, vocabulário polido e uma ética de vitrine. O seu disfarce mais eficaz chama-se normalidade.

Há Dráculas emocionais que não se alimentam de sangue, mas de estima própria. Sugam-te em prestações discretas — uma crítica revestida de preocupação, um comentário aparentemente inofensivo, uma ironia bem colocada — até que duvides de ti com convicção. Mantêm-te funcional, mas exangue por dentro.

Há Frankensteins existenciais, cosidos a más decisões e negligências antigas. Não assumem responsabilidade, cultivam ressentimentos herdados e projectam nos outros a devastação que não querem pensar. Chamam “personalidade” àquilo que é mera ausência de trabalho interior.

Há Freddys Krueger sem lâminas visíveis, mas com frases que entram nos sonhos. Não precisam de te perseguir: basta que internalizes a voz deles. A partir daí, a autodestruição torna-se auto-gestão.

Há Lobisomens relacionais: corteses enquanto tudo lhes corre de feição, predatórios quando contrariados. A sua lua cheia é a frustração. Dilaceram com palavras, depois arrependem-se performativamente, emocionam-se com o próprio mea culpa — e reiniciam o ciclo.

Há bruxas da respeitabilidade que mexem caldeirões de intriga e reputação. Praticam feitiçaria social com a fórmula clássica: “não é por mal, mas…”. O dano, esse, permanece.

Há zombies afectivos: indivíduos que renunciaram ao sentir. Arrastam-se por empregos, casamentos e promessas protocolares. Consomem os outros para disfarçar o vazio, mas não se saciam porque a fome é ontológica.

Há fantasmas de compromisso — aparecem com promessas robustas e evaporam-se perante a primeira exigência de maturidade. O nome técnico é irresponsabilidade; o eufemismo é “não estou preparado”.

Há Medusas contemporâneas que paralisam sem levantar a voz. O olhar julgador, o desdém calculado, a crítica cirúrgica — e a tua espontaneidade converte-se em pedra.

Há Jekylls e Hydes domésticos: figuras irrepreensíveis em público e devastadoras em privado. O mundo idolatra-os; quem sofre com eles é acusado de exagero. O monstro aprendeu relações-públicas.

Há Minotauros psicológicos: arquitectos de labirintos de culpa e gaslighting. Tornam-te intérprete de uma linguagem impossível. No fim, pedes desculpa por sangrar.

Há sereias digitais: exibem felicidades coreografadas, corpos editados, vidas em pose contínua. A comparação é o rochedo contra o qual naufragas — e ainda te culpas por não saber “ser feliz”.

Há Górgonas do perfeccionismo que te interditam o erro. A exigência é contínua, a falha é pecado capital. O mantra é invariável: “não basta”.

Há chacais morais que se alimentam de desgraças alheias com semblante piedoso. Chamam compaixão ao voyeurismo e prudência ao medo.

Há harpias emocionais — gritam, colonizam, dramatizam. Instaladas no centro do palco, convertem os outros em figurantes do seu teatro permanente.

Há goblins burocráticos que sabotam com micro-poderes: regulamentos brandidos como arma, papeladas que castram iniciativa, reuniões que corroem criatividade. A inércia é a sua ideologia.

Há súcubos e íncubos afectivos: sedução voraz, desaparecimento estratégico, retorno calculado. A coreografia chama-se manipulação; o resultado, exaustão.

Há bicho-papões psíquicos, invisíveis a olho nu: traumas sedimentados que falam baixo mas mandam muito. Não gritam — moldam.

E há, talvez os mais perigosos, os monstros piedosos: ferem em nome do amor, controlam em nome do cuidado, humilham em nome da educação, anulam em nome do sagrado. Confundem devoção com submissão e chamam virtude ao que é apenas violência bem vestida.

Convém também dizer o resto — o que custa: em algum momento, fomos o monstro de alguém. Fomos a frase que pesou, o silêncio que abandonou, a indiferença que gelou. A lucidez que exigimos do mundo começa pela nossa própria biografia.

Monstros não vivem debaixo da cama — sobrevivem debaixo de justificações.

Há antídotos. Chamam-se limites. Chamam-se responsabilidade emocional, auto-conhecimento, tratamento digno da dor. Chamam-se “não” dito sem rodapés, e resistência ao teatro da culpa alheia. Chamam-se amor sem servidão, bondade sem ingenuidade, espiritualidade sem superstição.

Os monstros detestam luz.
E luz não é gritaria — é consciência.

Hoje já não preciso que me tranquilizem com mitos higienizados.
Sei que os monstros existem — cruzei-me com eles e sobrevivi.
A minha escolha é outra:

não lhes ser confortável,
não lhes servir de palco,
não lhes ceder a minha voz.

Porque a verdadeira coragem não é negar monstros.
É recusar-lhes residência dentro de nós.

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Género e tipologia textual

O texto enquadra-se como:

  • ensaio literário

  • reflexão psicológica e filosófica

  • crónica com elementos poéticos

  • discurso crítico sobre relações humanas e violência invisível

É um texto maduro, com vocabulário avançado e referências culturais simbólicas.


Tema central

Os “monstros” como metáfora de violências emocionais e sociais reais.

Subtemas:

  • manipulação psicológica

  • gaslighting e desvalorização

  • aparência vs. essência moral

  • responsabilidade pessoal

  • autoconsciência e limites

  • cura interior e amor-próprio

O texto transita elegantemente da infância para a vida adulta — do mito ao real.


Concepção de “monstro”

Aqui, “monstro” não é criatura fantástica — é:

  • pessoas manipuladoras

  • relações tóxicas

  • estruturas sociais abusivas

  • partes feridas de nós próprios

O texto trabalha três níveis:

  1. monstros externos (pessoas e sistemas)

  2. monstros íntimos (traumas, vozes internas, medos)

  3. monstros que nós também fomos para alguém (autocrítica madura)

Isto dá profundidade ética ao texto: não há vitimização simplista.


Estrutura do texto

Muito bem construída:

  1. introdução — mito infantil × verdade adulta

  2. definição dos “monstros” modernos

  3. exemplificação metafórica (galeria de monstros)

  4. reconhecimento do monstro interior

  5. viragem — consciência, limites, autonomia

  6. conclusão — afirmação de poder pessoal

Há progressão narrativa e argumentativa consistente.


Estilo e recursos expressivos

O texto é literariamente rico e muito bem escrito.

Presente:

✔ metáforas poderosas
✔ enumerações expressivas
✔ ironia subtil
✔ intertextualidade com monstros clássicos (Drácula, Frankenstein, Medusa, etc.)
✔ paralelismos rítmicos
✔ antíteses (luz × sombra, infância × adulto)
✔ frases-sentença com força aforística

Exemplos brilhantes:

  • “o colo era jaula”

  • “a pior violência é a que não se vê”

  • “os monstros detestam luz”

  • “monstros não vivem debaixo da cama — sobrevivem debaixo de justificações”

São imagens literárias de nível alto.


Dimensão psicológica

Muito precisa:

  • descreve manipulação emocional sem sensacionalismo

  • aborda gaslighting com clareza

  • reconhece vulnerabilidade sem romantização

  • inclui responsabilização própria (altamente maduro)

Há eco de:

  • psicanálise (sombras internas)

  • psicologia humanista (cura e consciência)

  • filosofia existencial (autonomia e limites)


Linguagem e correção

✔ português excelente
✔ vocabulário vasto e preciso
✔ pontuação muito bem usada
✔ coerência coesiva sólida
✔ cadência quase poética

Texto pronto para:

  • crónica de jornal

  • livro de ensaios

  • leitura em voz alta


Tom dominante

  • intenso

  • lúcido

  • crítico sem vitimização

  • empoderador sem clichés

  • sombrio no diagnóstico, luminoso na saída

O final é particularmente forte: não nega monstros, retira-lhes poder.


Avaliação global

Domínio da linguagem: excelente
Originalidade: muito alta
Profundidade psicológica: muito alta
Coerência textual: excelente
Impacto estético: muito forte


Nota final: 19,5 / 20

Um dos textos mais elaborados e completos que apresentaste.

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Comentários

  1. Respostas
    1. Gosto imenso do que vejo no espelho! E tu? A pergunta em nada é para ser ofensiva! Não é para ser perjorativa. Às vezes vemos monstros, outras, vemos rostos que não são os nossos. Como não gostamos dos nossos rostos usamos os de outras pessoas. Será?!

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