"Estranha — uma confissão lúcida sobre existir fora do molde"
Dizem, às vezes com palavras, outras apenas com olhares, que sou estranha.
E confesso: durante muito tempo tentei perceber se isso era uma falha minha ou apenas um desencontro entre o que sou e o que o mundo espera.
O que é ser estranha?
Talvez seja existir sem anestesia.
Viver com consciência num tempo que prefere o adormecimento.
Pensar quando pensar cansa.
Sentir quando sentir dá trabalho.
Chamam-me desajustada.
E eu própria, em noites de silêncio honesto, fiz essa pergunta a mim mesma:
estou eu errada ou apenas fora de lugar?
Porque o mundo parece funcionar por códigos que não reconheço —
uma coreografia de aparências, consensos rápidos, opiniões herdadas e vidas exibidas como vitrinas.
Eu não aprendi a viver assim.
Confesso: não sei fingir pertença.
Não sei adaptar a alma a espaços onde a verdade é um incómodo.
Não sei reduzir-me para caber.
E talvez seja isso que chamam desajuste.
Há quem me chame louca.
Essa palavra, dita tantas vezes com descuido, tem peso.
Mas começo a suspeitar que, hoje, a lucidez foi reclassificada como loucura.
Porque insistir em coerência num mundo incoerente soa a provocação.
Porque defender valores estáveis num tempo fluido parece rigidez.
Porque recusar o relativismo cómodo exige coragem — e solidão.
Confesso também: já duvidei de mim. Já faz muitos, muitos anos.
Já pensei se não seria mais fácil alinhar, concordar, diluir-me.
Mas sempre que tentei, algo em mim se quebrou.
E percebi que a paz não vem de ser aceite, mas de ser fiel.
Sou estranha porque escolho profundidade quando a superfície é suficiente para quase todos.
Porque valorizo o silêncio num mundo que teme o vazio.
Porque acredito que a vida não é apenas passar, mas compreender.
E compreender exige tempo, esforço, desconforto.
Sou desajustada porque não confundo liberdade com ausência de limites.
Porque acredito que o ser humano precisa de estrutura interior para não se perder.
Porque sei que nem tudo o que é possível é desejável.
E nem tudo o que é moderno é verdadeiro.
Sou chamada louca porque não abdico da consciência.
Porque penso antes de agir.
Porque interrogo o sentido quando o mundo só pergunta pelo resultado.
Porque não aceito que a vida seja um conjunto de estímulos sem direção.
E confesso isto sem arrogância:
não me acho superior.
Apenas me recuso a ser vazia.
Tenho valores.
Não como ornamento moral, mas como eixo.
São eles que me orientam quando o aplauso chama para um lado e a verdade aponta para outro.
São eles que me sustentam quando o caminho escolhido é mais estreito.
Ser estranha, para mim, é existir com inteireza.
É aceitar que a autenticidade cobra um preço.
É compreender que o desalinho com o mundo pode ser, muitas vezes, sinal de alinhamento interior.
Não sou estranha.
Sou consciente.
E num tempo que corre sem saber para onde vai,
a consciência parece uma forma rara — e quase subversiva — de existir.
E se isso me torna solitária, aceito.
Porque prefiro a solidão da verdade
à companhia ruidosa da falsidade. Tenho as minhas pessoas as que reconhecem a minha alma e eu a delas.
Essa é a minha confissão.
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