"O humor"

 Existem pessoas peculiares. E depois existem aquelas tão extraordinariamente peculiares que o cérebro, num acto de legítima autodefesa cognitiva, desiste de as classificar como humanas e recorre imediatamente ao arquivo zoológico interno. Não é crueldade — é eficiência mental. A comparação surge sozinha, limpa, inequívoca. Olhamos, ouvimos… e pronto. Ah. Já sei.

Hoje conheci uma dessas pessoas.

O reconhecimento foi instantâneo. Bastou abrir a boca. O tom, a cadência, a convicção absoluta de que cada som produzido era, por si só, um contributo relevante para o universo. Fez-me lembrar a perua da fazenda. Não metaforicamente. Literalmente.

A perua era uma criatura fascinante. Falava muito — ou melhor, vocalizava com entusiasmo — sem que isso tivesse qualquer impacto positivo no ambiente. Nunca pareceu duvidar de nada, muito menos de si própria. E tinha uma característica marcante: sempre que chovia, ficava imóvel, de pescoço esticado, a olhar para o céu, como se aguardasse iluminação divina ou instruções superiores.

Morreu assim. Afogada. Em pé. A olhar para o céu.
Uma morte coerente com a sua personalidade.

Enquanto esta memória me atravessava a mente, lembrei-me de outro fenómeno igualmente revelador: 1505 visualizações num único dia. E, curiosamente, o paralelismo é mais profundo do que parece.

Durante o dia, as visualizações vinham sobretudo de Windows, Linux e Macintosh. Pessoas sentadas. Pessoas com postura. Pessoas que fingem trabalhar enquanto lêem qualquer coisa que não deviam. Sistemas operativos sérios, racionais, moralmente cansados. Juntavam-se-lhes ainda Chrome OS, Ubuntu, Debian, Fedora, Arch, FreeBSD, Solaris (o que é sempre preocupante), Windows Server (o que é ainda pior), Android TV e um navegador obscuro que parece existir apenas por teimosia histórica.

Era o público diurno: lógico, funcional, ligeiramente arrogante. O equivalente humano da perua antes da chuva.

Mas depois veio a noite.
E com ela, a queda inevitável na realidade.

A esta hora, a maioria das visualizações vinha de Safari no iPhone, seguido de Android, depois Windows. Ou seja: pessoas deitadas, semi-conscientes, com o telemóvel a cair lentamente sobre a cara. O Safari nocturno é o olhar fixo da perua para o céu: silencioso, confiante, completamente desligado das consequências.

E aqui entram as marcas — porque o detalhe denuncia tudo.

Samsung Galaxy, sólido, confiante, convencido de que fez a escolha certa na vida.
Redmi, rápido, prático, barato e emocionalmente impulsivo.
Depois vêm Xiaomi, Poco, OnePlus, Oppo, Realme, Huawei, Honor, Motorola e Sony Xperia — dez variações do mesmo pensamento: “fiz uma excelente compra depois de três comparações e um vídeo no YouTube”.

Cada marca é um traço de carácter.
O OnePlus acha-se especial.
O Oppo quer ser bonito.
O Realme quer provar alguma coisa.
O Motorola vive da nostalgia.
O Sony Xperia sente-se incompreendido.
O Huawei persiste por pura força de vontade.
O Honor tenta emancipar-se.
O Poco quer performance.
O Xiaomi quer quantidade.
O Redmi quer tudo isto… mas sem pagar por isso.

E depois há o iPhone. Sempre o iPhone. Visualizações feitas com dignidade, mesmo quando não há nenhuma. O utilizador de Safari não comenta. Observa. Julga. Fecha. Dorme.

No fundo, estas 1505 visualizações são exactamente como aquela perua. Muito barulho, muito movimento, muito olhar para cima — pouca consciência do que está a acontecer à volta. De dia, somos sistemas operativos sérios. À noite, somos marcas vulneráveis. E há sempre alguém a olhar para o céu, de boca aberta, convencido de que aquilo é profundidade.

A diferença é que a perua tinha uma desculpa biológica.
Nós temos estatísticas.

E talvez o verdadeiro milagre dos tempos modernos seja este:
pessoas completamente diferentes, em dispositivos completamente diferentes, todas a fazer a mesma coisa — olhar fixamente para algo sem perceber muito bem porquê.

Tal como a perua.
Antes da chuva.



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