"Assustador"

 É sempre maravilhoso escutar o nosso pároco nas suas homilias. Há nelas uma mistura rara de inteligência serena, humor subtil e intensidade humana que nos alcança sem estrondo, mas com profundidade. Não fala apenas para preencher o silêncio: fala para iluminar o interior de quem ouve. Cada palavra parece nascer de uma experiência vivida, pensada e rezada, e por isso ensino-me sempre qualquer coisa — não apenas sobre Deus, mas também sobre mim e sobre o mundo que me rodeia.

Hoje, porém, aconteceu algo diferente. Foi assustador, sim, mas assustador de uma forma boa, como quem se espanta com uma coincidência que parece demasiado perfeita para ser apenas acaso. Ao escutá-lo, percebi que usava as mesmas analogias, as mesmas imagens e até a mesma linha de pensamento que eu própria já tinha escrito há muito tempo. Foi como se as minhas palavras antigas regressassem a mim pela voz de outro.

Recordei o texto em que escrevi que não estamos todos no mesmo barco, mas sim no mesmo mar. Essa frase nasceu de dentro, com verdade e sem esforço, como quem respira. Os barcos, esses, são diferentes: há quem viaje em navios seguros, há quem avance em pequenas barcas gastas, há quem lute para não naufragar. Mas o mar é o mesmo para todos — partilhamos as ondas, o vento, as tempestades e os horizontes. Hoje ouvi essa mesma visão na homilia, dita com a naturalidade de quem também a sentiu. Foi de arrepiar, mas belo. Um susto que consola.

Lembrei-me igualmente do que tenho escrito sobre as famílias que hoje fazem parte da Igreja: casais que se separaram, vidas refeitas, histórias que se quebraram e, com muita coragem, se reconstruíram. A Igreja de hoje não é feita apenas de linhas direitas; é feita de vidas verdadeiras. Há feridas, recomeços, quedas e ressurreições silenciosas. Ver o meu pároco reconhecer esta realidade com delicadeza e inteligência fez-me sentir compreendida por dentro, como se aquilo que eu havia percebido e escrito há tempo fosse, afinal, partilhado por outros corações atentos.

Foi, portanto, assustador de uma forma boa. Assustador porque tocou o íntimo; bom porque confirmou algo essencial: estou no caminho certo. Não porque as minhas palavras sejam importantes, mas porque o que intuí e escrevi há muito tempo encontrou ressonância fora de mim. Quando dois pensamentos nascem separados e se encontram, há qualquer coisa de divino nesse encontro.

E assim sigo: a aprender, a escutar, a escrever e a deixar-me surpreender por estas coincidências que não parecem coincidências. O mar é o mesmo. Navegamos juntos. E, quando a verdade se confirma no eco da voz do outro, só nos resta agradecer em silêncio.

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