"Confesso"

 Hoje foi dia de confissões.

E, como sempre, tudo começou antes — no silêncio do exame de consciência, onde a alma se despe e a verdade não precisa de adornos.

Passei pelas perguntas com atenção, respondi a todas, sem atalhos.
Fui sincera.
Disse que não escondi pecados por vergonha.
Que cumpri a penitência anterior.
Que rezo, que participo dos sacramentos, que procuro formar-me na fé.
Que cuido da minha família, do meu trabalho, do estudo e do voluntariado.

E disse também, com simplicidade, aquilo que é verdade:
não tenho muito tempo para pecar.

Não por virtude extraordinária, mas porque a minha vida está ocupada com o que é essencial.
Com responsabilidades, relações, serviço.
Com o bem concreto do dia a dia.

Quando terminei, esperei.
Esperei a penitência, como quem espera um gesto que sela o sacramento.
Mas ela não veio.

O senhor padre ouviu-me com atenção, acolheu as minhas palavras, deu-me a absolvição —
e não me deu penitência.

Confesso que, por um instante, estranhei.
A pergunta surgiu quase automática:
devo preocupar-me?

Mas, no silêncio que se seguiu, compreendi algo mais profundo.

A penitência não é castigo.
É remédio.
E às vezes, o remédio é continuar no caminho que já está a ser percorrido.
Às vezes, a vida vivida com fidelidade, responsabilidade e serviço já é, em si, penitência e oferta.

Talvez o padre tenha visto que a minha alma não precisava de mais peso,
mas de confirmação ajuda e encorajamento.
Talvez tenha entendido que o que me é pedido agora não é acrescentar algo,
mas perseverar.

Aprendi que Deus não funciona por fórmulas fixas.
Ele conhece os corações.
E a misericórdia não se mede em orações prescritas,
mas na disposição interior de conversão.

Saí do confessionário em paz.
Não com a sensação de ter “faltado algo”,
mas com a certeza de que fui acolhida por um Deus que não complica o que já está entregue.

E entendi, finalmente, que às vezes a maior penitência
é continuar a viver com verdade,
sem relaxar,
sem endurecer,
sem esquecer que tudo é graça.

E isso — isso não me inquieta.
Isso tranquiliza-me.

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