"Época"

 Vivemos numa época extraordinária. Extraordinária no sentido etimológico do termo: fora do ordinário, fora do razoável, fora de qualquer noção minimamente aceitável de bom senso. Uma época em que toda a gente tem opinião, quase ninguém tem informação, e absolutamente ninguém tem dúvidas — o que é, convenhamos, o verdadeiro milagre dos tempos modernos. Antigamente, para se ser ignorante era preciso esforço; hoje basta ter ligação à internet e uma convicção inflamável.

O cidadão contemporâneo, esse titã do pensamento instantâneo, acorda todas as manhãs com a nobre missão de “ter uma opinião sobre tudo”. Não importa o quê: geopolítica do Cáucaso, neurocirurgia pediátrica, alterações climáticas ou a vida privada de um actor que nunca pediu para existir. O importante não é compreender — isso seria excessivamente trabalhoso — mas posicionar-se. Posicionar-se é fácil, rápido e, sobretudo, isento de responsabilidade intelectual.

A dúvida, essa antiga ferramenta do pensamento, foi entretanto declarada obsoleta. Questionar é visto como fraqueza, ponderar como traição, e mudar de opinião como um crime moral equiparável à heresia medieval, embora com menos fogueiras e mais comentários indignados. O ideal moderno é ter certezas absolutas baseadas em leituras parciais de títulos mal traduzidos, de preferência acompanhadas por um emoji que simbolize revolta ou sabedoria ancestral — geralmente ambos ao mesmo tempo.

O humor da situação atinge níveis quase artísticos quando se observa a proliferação de especialistas instantâneos. Nunca houve tantos epidemiologistas amadores, economistas de café, filósofos de caixa de comentários e juristas formados em três vídeos e meio. A ciência, coitada, tornou-se uma espécie de buffet: cada um escolhe apenas o que lhe agrada, ignora o que contraria as suas crenças e sai convencido de que fez uma refeição equilibrada.

E, claro, nada disto estaria completo sem a indignação moral permanente — esse desporto olímpico do nosso tempo. Indignamo-nos com tudo, o tempo todo, preferencialmente sem agir sobre nada. A indignação é confortável: permite-nos sentir superiores sem o incómodo de sermos úteis. É um sentimento elegante, limpo, reciclável e altamente performativo, ideal para exibição pública e completamente inútil em privado.

Entretanto, a linguagem vai sendo esvaziada com uma eficiência notável. As palavras já não descrevem a realidade; decoram-na. Termos complexos são usados como amuletos sem significado, conceitos profundos são reduzidos a slogans, e a nuance — essa pobre criatura indefesa — foi atropelada por um camião carregado de certezas simplistas. Pensar dá trabalho, e trabalhar cansa. Logo, pensa-se pouco e repete-se muito.

No meio deste espectáculo grandioso, o indivíduo verdadeiramente pensante — aquele que lê, reflecte, hesita, reconsidera — tornou-se uma figura quase mitológica. Uma espécie de eremita intelectual, visto com desconfiança por não gritar, por não simplificar, por não oferecer respostas imediatas. É acusado de arrogância por ser cauteloso e de elitismo por recusar conclusões fáceis. Afinal, como ousa alguém complicar aquilo que pode ser maravilhosamente mal compreendido?

E assim seguimos, felizes na nossa confusão organizada, orgulhosos da nossa ignorância bem articulada, confortáveis na ilusão de que saber é o mesmo que opinar. O mundo não se tornou mais estúpido — tornou-se apenas mais barulhento. A diferença é subtil, mas devastadora.

No fundo, talvez estejamos apenas a viver o triunfo absoluto da mediocridade confiante sobre a inteligência silenciosa. E se isso não é digno de um sorriso sarcástico — lento, lúcido e ligeiramente cansado — então nada mais o será.

Porque rir, neste contexto, não é falta de seriedade.
É uma forma refinada de sobrevivência intelectual.

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