"Cerzir"
Ah, se pudéssemos cerzir os erros.
Não apagá-los — apenas remendá-los com cuidado. Dar uma alinhavada no tempo, dessas provisórias, só para que a ferida deixasse de sangrar enquanto cicatriza.
Se fosse possível bordar flores por cima da saudade, não para fingir que ela não existe, mas para que doesse menos ao tocar. Costurar com ponto miúdo as lembranças boas, aquelas que não gritam, mas permanecem. As que aquecem, mesmo quando já não há presença.
Mas o tempo não se deixa costurar.
Ele passa. Desfia. Leva consigo o que fomos e o que nunca chegámos a ser. E nós ficamos aqui, com as mãos cheias de fios soltos, a tentar entender em que ponto tudo se rompeu.
Aprendemos tarde que errar não é o maior rasgão. O mais difícil é aceitar que algumas coisas não voltam ao tecido original. Que há costuras que ficam visíveis. Que há remendos que contam histórias.
Talvez a vida não nos peça perfeição, mas cuidado.
Cuidado com o que dizemos.
Com o que adiamos.
Com o que deixamos por fazer acreditando que haverá sempre mais pano.
A saudade não é um defeito — é sinal de que algo foi real. E as lembranças doces, quando bem guardadas, não nos prendem ao passado; sustentam-nos no presente. São elas que nos lembram que amámos, que fomos inteiros, mesmo que por instantes.
Se pudéssemos cerzir os erros, talvez aprendêssemos a fazê-lo primeiro em nós. Com paciência. Com compaixão. Com esse ponto miúdo que não se vê à distância, mas segura tudo.
E talvez seja isso que nos resta:
não refazer o que passou,
mas cuidar melhor do que ainda temos nas mãos.
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