"Perua"
Existem pessoas peculiares. Não “peculiares” no sentido romântico, charmoso ou ligeiramente excêntrico que a sociedade gosta de romantizar quando convém, mas peculiares no sentido quase etológico — indivíduos cuja simples presença desperta em nós uma memória ancestral, primitiva, profundamente animal. Não por maldade, note-se. É um reflexo. Um curto-circuito cognitivo. Olhamos para a pessoa, ela abre a boca… e o cérebro, educado mas honesto, responde: isto lembra-me qualquer coisa.
Hoje conheci uma dessas pessoas.
O reconhecimento foi imediato, quase científico. Não houve espaço para reflexão, nem para culpa. Foi como reconhecer um cheiro ou um som: automático, inevitável, profundamente esclarecedor. Aquela pessoa fez-me lembrar a perua que temos na fazenda.
Agora, convém esclarecer: não se trata de uma metáfora leviana. A perua em questão era, ela própria, uma criatura singular. Não no sentido majestoso — isso seria atribuir-lhe uma dignidade que nunca reclamou — mas numa peculiaridade pura, quase artística. Falava muito. Ou melhor, produzia sons com grande convicção, ainda que sem qualquer relação visível com a realidade circundante. Tal como a pessoa que hoje conheci.
O paralelismo não termina no tom vocal, que já de si era impressionante. Era também o ritmo, a cadência, aquela confiança absoluta em cada emissão sonora, como se o simples acto de falar fosse prova suficiente de inteligência. A perua nunca pareceu duvidar de si mesma. E esta pessoa, igualmente, parecia habitar um universo onde a autoconsciência fora substituída por uma fé inabalável na própria irrelevância.
A perua tinha ainda outra característica notável: um fascínio quase espiritual pelo céu. Sempre que chovia, ficava imóvel, de pescoço esticado, olhar fixo nas alturas, como se esperasse uma revelação divina ou uma promoção súbita a entidade superior. O problema, como se veio a verificar de forma trágica mas instrutiva, é que enquanto contemplava o infinito, esquecia-se de algo trivial: fechar o bico.
Resultado: morreu afogada. Em pé. A olhar para o céu. Um fim que combina perfeitamente com a sua personalidade — profundamente convicto, absolutamente inútil e preventivamente evitável.
Ora, ao ouvir aquela pessoa falar hoje, tive exactamente a mesma sensação. O mesmo olhar vazio, apontado para uma ideia vaga de grandeza pessoal. A mesma incapacidade de perceber o contexto. A mesma eloquência barulhenta sem qualquer substância nutricional. E sobretudo, a mesma certeza de que nada do que estava a acontecer justificava uma pausa para reflexão.
Há pessoas que não aprendem, não porque não possam, mas porque estão demasiado ocupadas a existir em voz alta. Tal como a perua. Pensar exige fechar o bico por uns segundos. E há quem considere isso uma afronta à própria identidade.
Não digo que aquela pessoa vá morrer afogada a olhar para o céu — embora, estatisticamente, não seja impossível. Mas digo que existe um tipo muito específico de ser humano que atravessa a vida com a mesma lógica daquela ave: barulho constante, orientação inexistente e uma confiança quase poética na própria falta de noção.
E talvez o mais cruel disto tudo seja o seguinte: a perua, ao menos, tinha a desculpa biológica. Já certas pessoas… apenas nos oferecem a triste prova de que a evolução nem sempre é um processo uniforme.
No fim, resta-nos observar. E, se possível, manter distância da chuva.
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