"Quase"
Quantas vezes já te sentiste um “quase”?
Quase suficiente.
Quase boa o bastante.
Quase no lugar certo — mas nunca inteira.
O “quase” é um território cruel. Não dói de forma evidente, mas corrói lentamente. Carrega um peso invisível: a sensação persistente de que falta sempre algo para seres digna de amor, de reconhecimento, de pertença. Como se estivesses constantemente a um passo da versão de ti que finalmente mereceria ficar.
Mas a verdade é esta — e custa aceitá-la: o que falta raramente é conquista.
O que falta, muitas vezes, é gentileza com a tua própria história.
Quando começas a medir o teu valor apenas pelos resultados, tudo o que não corre como planeado transforma-se num julgamento. O fracasso deixa de ser um momento e passa a ser identidade. O erro deixa de ser aprendizagem e torna-se sentença. E é aí que nasce o verdadeiro perigo: confundires estar em transição com estares perdida.
Transições são incómodas. São instáveis. São cheias de dúvidas.
Mas não são ausência de valor.
Vivemos numa cultura que glorifica o “chegar”, mas não ensina a respeitar o “tornar-se”. E no processo de te estares a construir, é fácil acreditares que ainda não és suficiente — quando, na verdade, estás apenas em movimento.
Ninguém é “quase” quando vive com verdade.
Ninguém é “quase” quando continua, apesar do medo.
Ninguém é “quase” quando escolhe não endurecer, mesmo depois de desilusões.
O que te torna inteira não é o amor que deu certo, nem o projecto que resultou, nem o sonho finalmente realizado. É a capacidade de continuares a acreditar quando tudo parece recomeçar. É a coragem de não desistires de ti quando seria mais fácil fechar-te. É a fidelidade silenciosa àquilo que sabes que és, mesmo quando ainda não sabes onde vais chegar.
Talvez não estejas atrasada.
Talvez não te falte nada.
Talvez estejas apenas a atravessar uma fase em que crescer não faz barulho.
E isso não te torna um “quase”.
Torna-te humana.
Inteira.
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