"Tudo acontece na hora certa — e é tudo escolha nossa"
Sempre acreditei, ainda que por vezes relutante, que a vida tem um ritmo próprio. Um compasso que não posso apressar, nem desacelerar. Por mais que tente controlar cada detalhe — os afectos, os fracassos, os começos e os fins — há algo maior, invisível, que me ensina, dia após dia, que tudo acontece na hora certa, com as pessoas certas. Não antes. Não depois. No exacto momento em que tem de acontecer.
Cresci com a ideia de que o destino era uma estrada já desenhada, que me cabia apenas seguir. Mas à medida que fui vivendo, tropeçando, levantando-me, percebi que não. A estrada faz-se ao andar, sim, mas são as minhas escolhas que colocam cada pedra, cada curva, cada encruzilhada. E isso, confesso, assusta. Saber que cada passo é meu. Que não há culpados externos. Que não posso culpar o tempo, nem os outros, nem sequer a sorte. As escolhas são minhas. E as consequências também.
Assumi decisões que mudaram o rumo da minha vida — algumas por impulso, outras com ponderação. E em cada uma delas deixei um pedaço de mim. Não posso dizer que me arrependo, porque até os erros me ensinaram coisas que eu precisava de saber. Há dores que nos moldam. Há perdas que nos acordam. Há silêncios que nos gritam verdades que recusámos ouvir.
Lembro-me de um momento, particularmente decisivo, em que tudo parecia desabar. Eu sentia que tinha perdido o controlo. Que tudo o que me rodeava era ruído, caos, confusão. Mas hoje percebo: não era o fim. Era o início. Era a vida a empurrar-me para um caminho que, na altura, eu não compreendia. E só anos depois, com a maturidade que vem da vivência, percebi que aquela era a hora certa. Que aquelas pessoas, mesmo as que me magoaram, estavam lá por um motivo. Que tudo fez sentido — no tempo certo.
E é aí que está o ponto mais difícil de aceitar: o tempo. Somos seres impacientes por natureza. Queremos tudo para ontem. Queremos respostas rápidas, soluções fáceis, finais felizes prontos a consumir. Mas a vida não trabalha assim. A vida é paciente. A vida espera que estejamos prontas. Que tenhamos aprendido o suficiente para merecer aquilo que pedimos.
E quando compreendemos isto, algo muda. Passamos a viver com mais leveza. Passamos a escolher com mais consciência. Deixamos de querer controlar tudo e começamos a aceitar. Não com resignação, mas com sabedoria. A sabedoria de quem sabe que cada escolha traz uma consequência, e que essa consequência, seja qual for, será sempre uma lição.
Hoje, sou feita das minhas escolhas. Das corajosas e das hesitantes. Das certas e das erradas. Das que me aproximaram dos meus sonhos e das que me desviaram — para que eu aprendesse a voltar. E por mais difícil que seja, aceito tudo o que vivi. Porque tudo isso me trouxe até aqui. E aqui é o único lugar onde eu posso estar. Agora.
Tudo acontece na hora certa. Com as pessoas certas. Nem sempre são as que queremos, mas são as que precisamos. E cabe-nos a nós, com amor próprio e responsabilidade, reconhecer isso. Escolher com o coração, mas também com a razão. Agir com consciência e assumir as consequências — não como castigo, mas como parte do processo.
Porque viver, no fundo, é isso: uma sucessão de escolhas. E eu escolho viver de forma inteira. Presente. Atenta. Escolho aprender. Perdoar. Seguir em frente. E acima de tudo, escolho confiar — que tudo, absolutamente tudo, chegará quando tiver de chegar.
Na hora certa.
Texto de autoria de Marisa, publicado em Fio de Imaginação (@tecehistorias).
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