"Sexta-feira…"

 Carregada de tarefas, cansaços, pressas.

E eu, mulher feita de pedaços: mãe, filha órfã, voluntária, amiga, sonhadora.

Levo comigo o meu filho, como quem leva o coração fora do peito.

Vejo-o rir na piscina, falar sem parar, inventar mundos que só as crianças sabem criar.

E nesse instante breve, tão breve, sinto a presença dela — da minha mãe —

como uma brisa suave que me diz: olha para ele, olha para a vida que continua.

Termina o trabalho, vem outro.

Ele fica para a aula de música, e eu corro para mais uma obrigação.

Almoço depressa, sem o aconchego daquela voz que me dizia: come devagar, filha.

E parto outra vez, porque o dia exige, a vida chama, a maternidade não espera.

Chega a hora difícil: deixá-lo com o pai e a irmã.

Sinto no peito uma dor antiga, misturada com a saudade de quem já partiu.

Saudade dela, da mãe que fui perdendo aos poucos até não a ter.

Mas continuo. Porque ser mãe hoje é também honrar quem me ensinou a sê-lo.

No fim do dia, busco humanidade no voluntariado.

Dou-me, sem esperar nada.

E lá, por instantes, quase ouço a voz dela: faz o bem, filha, sem olhar a quem.

Depois, o inesperado: a minha prima chega, e partilhamos um café, confidências, silêncio.

Caminhamos pelo parque como quem aprende a respirar de novo.

E sinto, no meio das palavras e do vento, que ela caminha connosco.

Regresso a casa, falo ao telefone, mas cedo o corpo cede.

Adormeço até ser despertada pelo meu filho — que me chama de volta ao presente, como quem diz: não te percas, mãe, estou aqui.

Agora, escrevo, cansada, com a alma despida.

Entrego este dia imperfeito a Deus — ao Pai que acolhe a minha dor,

a Jesus que conhece as minhas saudades, ao Espírito Santo que me sustenta,

e peço à Virgem Maria, Mãe entre as mães, que me abrace também por ela,

pela mãe que já não tenho ao meu lado, mas que mora em mim.

Ser mulher é isto:

É seguir em frente com a alma rasgada, mas cheia de ternura.

É transformar a pressa em cuidado, o cansaço em colo, a ausência em memória viva.

É aprender a ser mãe sem ter mais a mãe,

e, mesmo assim, continuar a acreditar no milagre dos dias.

E assim me deito: mortal, frágil, mas cheia de gratidão.

Porque amanhã recomeço, e nesse recomeço, levo sempre comigo a mulher que me deu a vida — e que, mesmo ausente, me continua a ensinar a viver.

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Texto de autoria de Marisa, publicado em Fio de Imaginação (@tecehistorias).

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