"Os dias..."
Entre jogos, conversas e muito amor, mesmo na leve correria de uma manhã de férias, descubro um prazer quase secreto que só quem vive estes dias em família conhece. Não há campainhas de escola, nem horários rígidos a cumprir — e, no entanto, há sempre aquela pressa suave, não imposta pelo relógio, mas pela vontade de não desperdiçar nada do que o dia nos pode dar.
Vou a pé, como gosto, com os meus filhos e o meu marido. Caminhamos sem destino apertado, mas com uma curiosidade imensa: as ruas que conhecemos parecem outras quando não há pressa verdadeira, apenas o desejo de chegar ao parque, ao café de sempre ou simplesmente a lugar nenhum — porque, para nós, o que importa é estarmos juntos.
Sou, assumo, uma mulher que encontra sentido nestes gestos pequenos, repetidos e cheios de afecto. Mesmo em férias, mesmo sem a rotina a apertar, há uma espécie de correria — não de quem foge ao tempo, mas de quem quer abraçar tudo o que o tempo oferece. É um passo apressado de entusiasmo: “vamos ver o mar?”, “quem chega primeiro ao banco do jardim?”, “quem descobre primeiro um gato escondido?”. São jogos que nascem do nada, mas enchem-nos de riso e de cumplicidade.
As conversas, nesses dias, têm outro sabor. Já não são sobre trabalhos de casa ou testes, mas sobre sonhos, histórias inventadas, memórias partilhadas. Falamos do que vamos fazer, mas também do que sentimos, do que imaginamos. Há uma liberdade especial em falar sem ter de olhar para o relógio, sem ter de interromper porque “estamos atrasados”. E nesse espaço livre, vejo melhor quem são os meus filhos, quem é o homem que amo e, de certa forma, quem sou eu também.
O amor que nos liga revela-se sobretudo nestes instantes simples: o meu marido a pôr a mão no ombro de um dos meninos, eu a segurar-lhes a mão ao atravessar a rua, o abraço espontâneo que surge a meio do caminho. É um amor vivido no presente, sem grandes planos nem gestos ensaiados, mas que se torna imenso porque é genuíno, quotidiano e partilhado.
Mesmo estando de férias, sinto que as manhãs têm sempre uma energia particular: a promessa de um dia inteiro para ser vivido, explorado, sentido. Não importa se vamos ao parque, à praia ou apenas à padaria do bairro. Importa a forma como vamos: juntos, atentos uns aos outros, a conversar, a brincar, a rir. E é isso que transforma o mais comum dos passeios numa memória preciosa.
No fim, o que guardo não são fotografias perfeitas, nem histórias grandiosas. Guardo a recordação destes momentos quase invisíveis: o cheiro do pão quente, o som do riso dos meus filhos, o toque da mão do meu marido, o céu visto de um banco de jardim. Guardo, sobretudo, a certeza de que são estas manhãs, entre jogos, conversas e muito amor, que fazem a vida valer a pena — porque, mais do que férias, são tempo vivido em família, e nada, absolutamente nada, é mais bonito do que isso.
Texto de autoria de Marisa, publicado em Fio de Imaginação (@tecehistorias).
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