"Sou quem procura ser"
Não sou o que visto. Recuso-me a ser costurada em rótulos, medida em padrões alheios ou alinhavada em tendências que mudam ao sabor do vento. Visto-me de liberdade: cores que não pedem licença, tecidos que abraçam o corpo como ele é, texturas que contam histórias que só eu conheço. Num dia sou alfaiate de mim mesma, no outro, uma criança a brincar com o espelho. O que visto nasce do instante, desse diálogo silencioso entre a pele e a alma. É expressão, não definição. É escolha, não sentença.
Também não sou o que ouço. Há dias em que me recolho no silêncio, outros em que me abandono a um fado antigo, me perco num verso, vibro num acorde inquieto. Há músicas que me elevam, outras que me despem até à dor. Mas nenhuma me resume. Porque sou, talvez, o intervalo entre as notas; o espaço onde respiro e sinto.
Não sou tampouco os livros que devoro, ainda que me atravessem e me transformem. Cada página lida é um espelho que devolve fragmentos e perguntas sem resposta. Gosto de todas as formas de palavra escrita: da poesia que se despe até ao osso, ao romance que me faz habitar outros tempos e outras vidas. Mas não me confundo com as histórias que leio. Sou a mulher que as lê — e que, ao fechar o livro, continua a escrever-se a si mesma, numa prosa imperfeita e inacabada.
E se a arte me fascina — e fascina-me profundamente — não é por dela fazer parte, mas porque me empresta outros olhos. Diante de um quadro, de uma escultura, de um traço quase imperceptível, encontro perguntas maiores do que eu. Há beleza no que me dói, no que não compreendo de imediato. Mas não sou tela nem pincel; sou o olhar que se detém, o coração que se comove, a mente que procura sentido mesmo onde não há.
E depois, há algo que me atravessa de uma forma mais funda: ser mãe. Não como título ou rótulo, mas como experiência que me reinventa todos os dias. Ser mãe é permitir-me ser espelho e abrigo; é ensinar e aprender ao mesmo tempo; é descobrir uma vulnerabilidade que é também a minha força maior. É amar de um modo tão visceral que quase me desintegro — e, ainda assim, me reconstruo sempre que sorrio por alguém além de mim. Não me reduz a isso, mas acrescenta-me uma dimensão mais profunda: aquela onde a ternura é coragem, e a paciência se torna acto de amor puro.
O que verdadeiramente me define não se veste, não se ouve, não se lê nem se contempla. É o esforço diário de ser melhor do que fui ontem. É a delicadeza de não julgar quem não conheço, o cuidado de não ferir, a escolha de respeitar mesmo quando discordo. É o amor que não exibo como troféu, mas que cultivo no silêncio: num gesto, num olhar, numa palavra contida.
Sou, no fundo, um ser inacabado. Carrego contradições e imperfeições — e é nelas que encontro humanidade. Não quero ser estátua: quero ser caminho. Quero continuar a aprender, a surpreender-me, a rever-me. Quero ser vulnerável sem medo, forte sem ferir, livre sem esquecer que todos somos feitos da mesma matéria frágil.
No meio das roupas, das músicas, dos livros, das obras de arte, e da experiência única de ser mãe, há algo que permanece: esta vontade quase teimosa de olhar o outro sem filtros, de sentir para além das palavras, de ser inteira mesmo quando me sinto partida. É essa procura, mais do que qualquer estética ou gosto, que me desenha por dentro.
E se me perguntarem quem sou, responderei sem hesitar: sou aquilo que tento ser. Sou a tentativa. Sou a imperfeita busca por empatia, por compaixão, por amor. Porque é no que ofereço ao outro — e sobretudo a quem mais amo, aos meus filhos — que verdadeiramente existo. Sou o que sinto, não o que mostro. Sou quem escolhe, todos os dias, não ser apenas reflexo, mas presença. Não ser apenas forma, mas essência.
E é nessa essência, invisível aos olhos mas tão real quanto o respirar, que me encontro — e me reinvento. Sempre.
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