"Entre o acaso, a virtude e a graça: uma meditação em voz de mulher"

 Há muito que aprendi a conviver com a ironia quase cruel da velha Lei de Murphy: “Se algo pode correr mal, vai correr mal.” Aos olhos de muitos, ela soa como um convite ao desânimo, uma piada amarga sobre o capricho da vida. Mas, para mim, tornou-se, paradoxalmente, uma espécie de professora: ensinou-me a esperar o inesperado, a não me iludir com a ilusão de controlo e, acima de tudo, a cultivar a serenidade no meio do caos.

Recordo-me de Sêneca e da sua Premeditatio Malorum: imaginar o que pode falhar, não para viver ansiosa, mas para que a alma esteja preparada e não se quebre perante a adversidade. Este exercício tornou-se natural em mim: olho para o futuro não com medo, mas com realismo. Se calhar, as coisas não correrão como sonho. Se calhar, até correrão pior. Mas não me apanharão totalmente desprevenida.

E no entanto, foi a minha fé — essa fé simples, católica, vivida mais no silêncio da oração do que nas palavras — que deu sentido a tudo isto. Porque acreditar em Deus não me protege da dor, mas dá-me um lugar onde a colocar. Ensinou-me a não apenas aceitar aquilo que não controlo, mas a oferecer — transformar cada queda, cada falha, cada desgosto em oração. É aqui que o estoicismo e o cristianismo se abraçam: ambos dizem que não mando no que acontece; mas a fé acrescenta: “Entrega, confia, e Deus dará sentido.”

Quantas vezes a Lei de Murphy se confirmou na minha vida! Quantas vezes algo que podia correr mal, correu mesmo. E quantas vezes, mesmo nessas derrotas, encontrei uma graça escondida que só mais tarde consegui ver. É uma lição de humildade: os meus planos são frágeis, a minha força é limitada. Mas há um Amor maior que sustenta tudo.

Penso então no Amor Fati dos estoicos — amar aquilo que me acontece, mesmo o que não escolhi. No cristianismo, este amor ao destino transforma-se em algo mais terno e mais radical: é o Fiat de Maria, o “faça-se” que não nasce da resignação, mas da confiança plena. É dizer: “Senhor, mesmo aquilo que me fere, se vier pelas Tuas mãos, aceito. E, se não vier pelas Tuas mãos, confio que também saberás tirar bem do mal.”

Epicteto dizia que não são as coisas que nos perturbam, mas a forma como as vemos. E Cristo levou isso mais longe: ensinou-me a ver cada dor como semente de eternidade. A cruz, maior escândalo da história, tornou-se sinal de esperança. É este olhar que desejo para a minha vida: que até aquilo que me magoa possa florescer em bondade.

Hoje vivo assim: com a prudência de quem sabe que tudo pode falhar, com a serenidade de quem aceita, e com a esperança de quem acredita que Deus transforma até a ruína em ressurreição. A Lei de Murphy já não me assusta; tornou-se um lembrete: “Prepara-te, mas não desesperes.” Porque nada está realmente perdido se for vivido no amor.

❝Se algo pode correr mal, que corra. Mas que eu tenha a coragem de recomeçar, a fé para não desistir, e o coração livre para continuar a amar.❞

É isto que me sustenta: saber que não sou apenas joguete do acaso, mas filha de um Deus que escreve certo por linhas tortas. E assim, mesmo quando o mundo parece desabar, encontro dentro de mim uma paz que não é minha — é dom, é graça.

E, no fim, talvez seja esta a maior vitória: não controlar tudo, mas permanecer de pé; não evitar a dor, mas não perder a ternura; não ter garantias, mas ter esperança.

Porque acredito que nada — nem mesmo as leis impiedosas do azar — é mais forte do que o amor de Deus. 🌿




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Texto de autoria de Marisa, publicado em Fio de Imaginação (@tecehistorias).

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