"Quem sou eu"

 Sou mulher.

Não apenas um género — sou território de afectos, de resistências, de memórias profundas.

Sou raiz e voo, ventre e voz.

Sou mãe — na carne e no espírito, no sangue e no gesto.

Gerar não é apenas parir: é cuidar, é doer com o outro, é vigiar os sonhos alheios como se fossem os meus.

É amar ao ponto de me desfigurar,

e depois, no espelho partido, reconhecer-me inteira.


Sou amante e namorada,

fusão do desejo com a ternura.

Conheço o toque que cura e o silêncio que destrói,

a paixão que redime e o amor que exige presença.

Sou chama, mas também brasa —

arde em mim a vontade de permanecer,

mas também o impulso de fugir para dentro.


Sou católica, mas não cega.

A fé que me habita é feita de inquietações.

Não me ajoelho por medo, mas por amor.

O meu Deus não é estático —

é um Deus que me provoca, que me pergunta,

que me chama para amar até ao extremo.

Sou imperfeita,

e é nessa imperfeição que encontro o rosto mais humano do divino.


Sou teimosa, sim.

Porque acredito. Porque luto. Porque não me resigno.

Sou justa, e a justiça que me move é feita de empatia.

Não suporto ver a dor alheia ignorada,

nem o silêncio pactuar com a injustiça.


Sou sentimental.

Sou sensível.

Sinto com a pele, com os olhos, com a alma.

As emoções atravessam-me —

sou maré cheia, sou tempestade às vezes, mas também calmaria.

Sou amor — inteiro, cru, sem disfarces.

O amor em mim é acto, é escolha, é insistência.


Sou misericórdia.

Sou perdão — não como esquecimento, mas como libertação.

Sou compaixão, porque sei o que é sofrer.

Sou generosidade — dou-me mesmo quando já estou cansada.

Sou altruísmo que não espera aplauso.

Sou compreensão, mesmo quando não concordo.

Sou paciência — mesmo quando a alma grita.

Sou partilha, porque acredito que tudo o que se guarda apodrece.

Sou empatia — vejo o outro como extensão de mim.

Sou calor — o abrigo, o abraço, o afago.

Mas também sou fria.

Porque por vezes a lucidez exige distância.

A frieza que conheço não é ausência de amor,

é o cuidado de não me perder inteira.


Sou uma questão.

Não sou resposta pronta nem definição acabada.

Sou aprendizagem, sou busca, sou erro e recomeço.

Sou dor — porque já perdi, porque já desisti, porque já recomecei.

Mas cada dor fez de mim mulher mais inteira.

Cada ferida me ensinou a amar melhor, a escolher melhor,

a ser menos dura comigo mesma.


Sou evolução.

Não sou hoje a mulher que fui ontem — e ainda bem.

Recuso a estagnação dos que acham que já chegaram.

Sou processo. Sou obra em andamento.


Sou tudo isto — e ainda aquilo que nem sei nomear.

Sou o que os outros vêem, mas também o que escondo.

Sou corpo, sou alma, sou palavra e silêncio.

Sou mulher.

Sou mãe.

Sou amante.

Sou fé.

Sou justiça, mas também ternura.

Sou misericórdia e sou exigência.

Sou quente e fria.

Sou luz e sombra.


Sou eu — inteira, imperfeita, em construção.

E todas essas partes, até as mais contraditórias, são minhas.

E são sagradas.

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Texto de autoria de Marisa, publicado em Fio de Imaginação (@tecehistorias).

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