"Entre Jerusalém e Jericó: Uma procissão de fé, amor e memória"
Hoje, dia da procissão de São Telmo, regresso a esta aldeia que me acolheu, onde encontrei refúgio para o meu filho e para mim.
Aqui, onde fomos caídos, tropeçados pelo peso da vida e das dificuldades, descobrimos o verdadeiro sentido do amor do próximo, a compaixão que salva, a misericórdia que cura.
Esta procissão que hoje percorro não é um simples acto tradicional; é uma manifestação profunda, visível e viva da nossa fé — uma fé que se fundamenta irremediavelmente na Palavra de Deus, na história do Seu povo, e no testemunho dos santos.
A dualidade do ser humano e o convite da parábola
Na parábola do Bom Samaritano, somos confrontados com a complexidade do ser humano.
Há aqueles que passam indiferentes — não param por indiferença, por medo, ou por uma escolha consciente, talvez até por um “póquer” da alma que não quer arriscar-se.
Por outro lado, existe o Samaritano, que para, cuida e acompanha.
Mas como podemos dizer que somos cristãos se não amamos, não perdoamos, não temos misericórdia?
Este desafio é para todos nós, pois dentro de cada um reside a luta entre o bem e o mal, entre o egoísmo e o amor, que travamos diariamente.
O caminho entre Jerusalém e Jericó: símbolo da vida
O caminho que une Jerusalém a Jericó, descrito na parábola, é carregado de simbolismo profundo.
Jerusalém representa a cidade santa, o ideal da vida plena em Deus, a meta da santidade e da comunhão.
Jericó, por sua vez, é símbolo do pecado, da queda e da fragilidade humana.
Entre estas duas cidades há um caminho, um percurso, que é a nossa vida: uma travessia onde podemos ser feridos, caídos, ou salvadores do outro.
Sabedoria do Espírito Santo para interpretar as Escrituras
Para compreender verdadeiramente a Bíblia e a vida, precisamos da sabedoria do Espírito Santo.
Como Jesus prometeu:
“O Espírito Santo ensinar-vos-á todas as coisas.” (João 14,26 – CV)
Só com esta iluminação interior conseguimos captar as profundezas do Evangelho e entender que as procissões, as imagens e a veneração dos santos não são meros costumes, mas expressões legítimas da fé.
Fundamentação bíblica das procissões e das imagens
Desde o início, o povo de Deus é um povo em caminho, um povo em procissão.
Abraão saiu da sua terra por ordem divina (Génesis 12,1 – CV). Israel caminhava com a Arca da Aliança, símbolo da presença divina:
“Partiram do monte do Senhor durante três dias; a Arca do Senhor ia à frente.” (Números 10,33 – CV)
A Arca, como uma imagem sagrada, não era um ídolo, mas sinal palpável da presença de Deus entre o povo.
Deus mesmo mandou fazer querubins dourados para o tabernáculo:
“Farás querubins de ouro batido...” (Êxodo 25,18-20 – CV)
No Antigo Testamento, as procissões eram manifestações de louvor, como diz o Salmo:
“Subi ao templo de Deus em procissão, no meio dos que cantavam louvores.” (Salmo 42,5 – CV)
“Formai uma procissão para o Senhor, até ao altar do templo.” (Salmo 118,27 – CV)
Jesus e Maria participaram destas procissões religiosas, confirmando a sua legitimidade:
“Subiram com os pais a Jerusalém para a festa.” (Lucas 2,41 – CV)
Os santos e as imagens: luzes que nos guiam
Na tradição cristã, as imagens dos santos são reflexos da luz divina, e venerá-las não é idolatria, mas honra e reconhecimento daqueles que viveram o Evangelho na sua plenitude:
“Consideremos uns aos outros para nos estimularmos ao amor e às boas obras.” (Hebreus 10,24 – CV)
As procissões que hoje fazemos, acompanhadas de imagens, são a continuação desta tradição, a expressão de uma fé corporal, comunitária e pública, que proclama:
“Proclamai a glória do seu nome; dai a conhecer as suas obras entre os povos.” (Salmo 105,2 – CV)
Minha experiência pessoal: encontrar o Samaritano na aldeia e na escola
Nesta aldeia, nesta escola, eu e o meu filho fomos os caídos.
Porém, encontramos Samaritano — pessoas de coração aberto que nos acolheram sem julgamentos, que nos ajudaram a ver as nossas imperfeições como parte da perfeição da vida, e que nos mostraram o verdadeiro rosto do amor.
Foi aí que compreendi:
Como posso dizer que sou cristã se não amar, perdoar e praticar a misericórdia?
A procissão: expressão irrevogável da fé
Por tudo isto, esta procissão é muito mais que um ritual; é um acto vivo, irrevogável, de amor a Deus e ao próximo.
Ela nos chama a sair do comodismo, a caminhar entre a cidade do pecado e a cidade santa, a ser luz onde há trevas.
É a Palavra que se torna visível, o Evangelho que caminha, o corpo que louva com passos e cantos, a comunidade reunida em memória viva do Deus que nos salva.
Final: oração e compromisso
Hoje, ao participar na procissão, entrego ao Senhor o meu coração agradecido e comprometido:
Que eu saiba sempre parar para cuidar, amar sem limites, perdoar sem medo, e ser Samaritana na vida dos que caem.
Que o Espírito Santo me guie, me ensine e me fortaleça para ser cristã verdadeira, porque:
“Deus é amor. Quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele.” (1 João 4,16 – CV)
______________________________________________
© 2014–2026 TeceHistórias (Marisa). Todos os direitos reservados.
Os conteúdos deste blogue, incluindo textos originais, encontram-se protegidos pelo Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos (CDADC) e demais legislação aplicável. É expressamente proibida a reprodução, cópia, transcrição, adaptação, publicação, distribuição, disponibilização pública ou qualquer forma de utilização, total ou parcial, por qualquer meio ou suporte, sem autorização prévia, expressa e escrita da autora. A utilização não autorizada poderá dar origem a responsabilidade civil e criminal nos termos da lei portuguesa da União Europeia.
Texto de autoria de Marisa, publicado em Fio de Imaginação (@tecehistorias).
Comentários
Enviar um comentário