"Esperar em Deus sem perder a esperança"

 Esperar é um verbo incómodo. Um verbo que dói. Um verbo que queima. Esperar em Deus, então… é uma espécie de alquimia da alma. Um exercício de fé em estado puro, de confiança cega, de rendição total — e, muitas vezes, de luta interior. Porque a alma deseja, clama, interroga, desespera… e Deus parece calmo, paciente, silencioso. Não ausente, mas oculto.

Eu sei o que é esperar.

Esperar por uma resposta.

Esperar pela cura.

Esperar pela reconciliação.

Esperar pela paz interior.

Esperar por algo que talvez nunca venha.

E continuar a acreditar. Continuar a amar. Continuar a confiar.

Porque esperar em Deus não é passividade. É fidelidade.


A esperança que resiste ao tempo.

Há uma diferença radical entre esperar no mundo e esperar em Deus. O mundo ensina-nos que esperar é perda de tempo. Que quem espera está parado. Que o tempo é curto demais para se confiar. Mas Deus… Deus habita o tempo sem se inquietar com ele. E ensina-me que esperar Nele é, paradoxalmente, viver já o que ainda não chegou.

A esperança cristã não é ilusória, nem ingénua, nem voluntarista. Não é um “pensamento positivo” nem uma anestesia mental. É virtude teologal. É dom. É músculo espiritual que se treina no silêncio. É resistência activa. É perseverança com os olhos fixos no invisível. É saber que Deus tarda, mas não falha — mesmo quando falha tudo o resto.

A esperança não se mede pelos resultados, mede-se pela fidelidade no escuro.


Quando tudo parece parado.

É aí, nesses desertos do espírito, que a espera se torna mais feroz. Quando as orações parecem estéreis. Quando o tempo passa e nada muda. Quando a fé se confronta com o real — e o real parece mudo.

Já me perguntei: “E se Deus não me ouvir?”

Ou pior: “E se Deus me ouvir e, mesmo assim, disser não?”

E nesse momento, percebo: esperar em Deus não é condicionar Deus. Não é impor-lhe prazos, nem formatos, nem justificações. É confiar que Ele sabe — mesmo quando eu não entendo. É acreditar que há um tempo certo para todas as coisas, mesmo que o meu tempo interior grite por urgência.

Esperar em Deus é um acto de humildade profunda. É reconhecer que Ele vê mais longe. Que Ele é Pai, e não empregado das minhas expectativas. Que Ele ama de forma mais exigente do que eu sei pedir.


Sem perder a esperança: fidelidade nos escombros.

Esperar sem esperança seria insuportável. Por isso a esperança precisa de ser alimentada — pela oração, pela Palavra, pela memória das promessas cumpridas, pela comunhão dos santos.

Quando tudo desaba, quando tudo se silencia, a esperança é o que impede que eu me desfaça.

Não é porque tudo está bem. É porque sei que Deus é bom, mesmo quando tudo está mal.

A esperança não é uma emoção. É uma decisão espiritual. É uma âncora, como escreve São Paulo: “A esperança é como âncora da alma” (Hb 6,19). E uma âncora só é útil quando o mar está agitado.


A espera de Maria: 

O modelo silencioso da fé.

Olho para Maria. A mulher que esperou.

Esperou pela promessa do anjo.

Esperou pela maturação do mistério no seu ventre.

Esperou por respostas que não vinham.

Esperou ao ver o seu Filho pregar, ser rejeitado, ser acusado.

Esperou junto à Cruz.

Esperou junto ao túmulo.

Esperou no cenáculo.

Maria nunca perdeu a esperança porque a sua fé não dependia de sinais visíveis. A sua alma sabia em Quem tinha acreditado. E por isso, esperar em silêncio foi o seu cântico.

A esperança de Maria não era passiva — era um sim contínuo, uma fidelidade sem exigências. Uma fé madura, ferida, mas firme.


Quando a alma se cansa de esperar.

Sim, há dias em que cansa.

Em que não há forças para repetir a mesma oração.

Em que as lágrimas escorrem por dentro.

Em que o silêncio de Deus se torna ensurdecedor.

E nesse abismo, descubro que o cansaço não é falha de fé. É condição humana. Mesmo os santos o sentiram. Mesmo Jesus, no Getsémani, pediu: “Se possível, afasta de mim este cálice.”

O que me consola é saber que Deus não me abandona no cansaço. Que o Seu silêncio não é indiferença. Que Ele está — mesmo quando não fala.

Esperar Nele não é ficar imóvel. É manter-me aberta. Disponível. Firme. É levantar-me cada manhã e dizer: “Senhor, ainda não veio… mas eu continuo aqui. Fica comigo.”


Esperar sem vitimização: 

Com responsabilidade e verdade.

Esperar em Deus não é desculpa para a inércia. Não é lavar as mãos das decisões, nem delegar tudo no céu como se Deus fosse um plano de fuga. A esperança cristã exige responsabilidade. Exige discernimento. Exige que eu assuma o que me compete, mesmo enquanto espero o que só Deus pode fazer.

Esperar não é esconder-me do mundo. É viver no mundo com o coração voltado para o Alto.

Sem vitimização. Sem dramatismo. Sem transferir tudo para fora de mim. Com humildade e com firmeza: faço o que posso, espero o que não posso, confio no que Deus fará.


A esperança como combate espiritual.

Sim, a esperança é também combate. Não é uma flor frágil. É um gesto de resistência radical. Porque neste mundo desencantado, cínico, onde tudo é instantâneo e descartável, esperar é escandaloso.

Ter esperança é acreditar contra a corrente. É manter acesa uma luz quando todos já apagaram as suas. É acreditar que Deus age — mesmo quando a história parece contradizer essa fé.

Santa Teresa de Jesus dizia: “Nada te perturbe, nada te espante, tudo passa. Só Deus não muda. Quem a Deus tem, nada lhe falta. Só Deus basta.”

Essa é a alma da esperança: saber que, mesmo se tudo me faltar, Deus não falta.


Esperar é amar.

No fim, percebo: esperar em Deus é uma forma de amar.

Amar sem possuir.

Amar sem entender.

Amar sem cobrar.

Amar sem controlar.

Tal como no amor humano verdadeiro: quem ama, espera. Porque acredita. Porque confia. Porque não desiste.

E Deus — esse Deus que tantas vezes me faz esperar — é o mesmo que esperou por mim tantas vezes. Que me esperou nas minhas fugas, nas minhas quedas, nos meus adiamentos, nas minhas resistências.

E se Ele me esperou com paciência, como não hei-de eu esperar por Ele com fé?


Conclusão: 

Esperar com esperança — eis a fé que me salva.

Esperar em Deus sem perder a esperança não é um estado de conforto.

É um caminho exigente.

É uma cruz muitas vezes invisível.

Mas é, sobretudo, um acto de confiança madura.

É dizer, mesmo em lágrimas:

“Eu não vejo, mas confio. Eu não entendo, mas acredito. Eu não controlo, mas entrego.”

E continuar.

Porque a esperança cristã não é desejar que tudo corra bem — é saber que Deus está, mesmo quando tudo corre mal.

E é essa certeza — firme, invisível, misteriosa  — que me salva.

A esperança que espera.

Que resiste.

Que ama.

Que persiste.

Que acredita até ao fim.

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Texto de autoria de Marisa, publicado em Fio de Imaginação (@tecehistorias).

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