"Encontrei"
Encontrei. Ou melhor, reencontrei aquilo que já tinha achado, algures entre um silêncio cúmplice e uma madrugada insone: uma paz tão íntima que chega a parecer indecente confessá-la em voz alta.
Mas não pensem que foi um caminho iluminado por epifanias suaves. Nada disso. Foi preciso atravessar corredores escuros da alma, ouvir vozes que criticavam com a mesma facilidade com que respiravam, que julgavam sem pestanejar, que mentiam com a tranquilidade quase artística de quem mente tanto que já não distingue invenção de verdade. Por momentos, quase invejei essa leveza de quem inventa a realidade a gosto. Quase.
Deixei que me toldassem, admito. Cedi ao peso do que esperavam que eu fosse, perdi noites a tentar compreender por que motivo alguém investe tanto tempo a tecer narrativas sobre a vida dos outros. E depois percebi: há quem se alimente da desgraça alheia como quem mastiga distraidamente uma pastilha. Faz parte do equilíbrio cósmico – sempre haverá quem respire melhor quando consegue sufocar a respiração de alguém.
Mas a verdade, essa, tem uma teimosia quase cruel: resiste. Mesmo quando a afogam em maledicência, mesmo quando a cobrem com a poeira das palavras torpes. E a minha verdade aguardou, paciente, que eu voltasse a lembrar-me de quem era antes do ruído.
Deixei para trás muita coisa. Deixei para trás a necessidade de convencer quem prefere as suas próprias mentiras ao incómodo da realidade. Deixei para trás o cansaço de me explicar a quem não quer escutar – porque explicar-se a quem julga de antemão é como falar de poesia a um candeeiro: dissipa-se a energia e sobra a sombra.
Hoje vejo tudo com uma ironia quase negra: os que criticam, julgam, mentem e inventam parecem viver fascinados pela minha existência, como quem espia a tragédia de uma peça que nunca ousariam representar. É um divertimento que lhes pertence, não a mim. Porque eu, essa peça, decidi não a encenar para público nenhum.
Encontrei, reencontrei, retomei: uma serenidade que não depende do que dizem, mas da coerência entre o que sou e o que faço. Uma paz que nasce não do silêncio absoluto, mas da consciência tranquila. Não precisam aplaudir, não precisam compreender. Talvez até seja melhor que não compreendam – porque há uma liberdade obscura em ser mal interpretada: ficamos livres da obrigação de corresponder.
Sim, por um tempo conseguiram. Conseguiram roubar-me a tranquilidade, injectar-me dúvidas que não eram minhas, obrigar-me a calçar sapatos apertados de expectativas que me feriam o passo. Mas agora, não. Agora, reencontrei aquilo que sempre foi meu: a lucidez de saber que o valor não se mede pelo eco das vozes que nos rodeiam, mas pelo silêncio interior que nos sustenta.
E digo-o com um sorriso levemente irónico: podem continuar a mentir, inventar, julgar, criticar. No fundo, até me divertem – há quem encontre sentido em bordar veneno nas conversas de café, e que direito tenho eu de lhes negar esse prazer?
Porque no fim, aquilo que fica não é o que dizem, mas o que somos. E o que sou, intacta, apesar de tudo, encontrei – melhor, reencontrei, e desta vez, com a serenidade acutilante de quem já não precisa de pedir licença para existir.
E não largo.
Texto de autoria de Marisa, publicado em Fio de Imaginação (@tecehistorias).
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