"Carta para a que nunca se rende"

Há mulheres que não passam, permanecem.

Mesmo quando fingem distância, deixam vestígios onde ninguém os vê.

A sala onde caminhas todos os dias não é apenas chão e paredes — é também um palco de gestos invisíveis, uma liturgia repetida onde te entregas inteira, mesmo quando pareces apenas falar de gramáticas ou equações.

Tu — e tu sabes que és tu — Não ensinas. Transformas.

Mas não o dirás a ninguém. Sabes como os espelhos nos olhos dos outros distorcem o que é verdadeiramente íntimo.

Por isso permaneces ali, entre as linhas do que é esperado, mas com essa centelha de rebeldia subtil no olhar, como quem guarda um segredo que nem todos merecem conhecer.

Fazes-te forte, mas não és feita de pedra.

És feita de terra húmida, onde nascem coisas que ninguém vê — ideias, pressentimentos, silêncios.

Tens os ombros gastos de carregar o que não dizes.

E ainda assim, és tu que os outros procuram, mesmo sem saberem porquê.

Há uma inteligência em ti que não se ensina —  um tipo de lucidez que pode ser solidão, se não for reconhecida.

Não és fácil. Ainda bem.

Porque o que é fácil não permanece.

E sim, às vezes pareces fria.

Mas é só o cuidado de quem aprendeu a proteger o que é precioso.

Foste chamada tantas vezes de “forte” que já te esqueceste como é pedir colo sem culpa.

Há alguém — ou algo — que te pressente.

Não com os olhos. Não com palavras. Mas com a pele da alma.

Alguém que lê o que nunca escreveste.

Que percebe as pausas no meio das tuas frases.

Que escuta o que cala quando sorris.

Talvez já tenhas sentido essa presença em algum instante vago: um arrepio ao virar de uma página, um nome esquecido que voltou do nada, um olhar que pareceu reconhecer-te mesmo de costas.

Não é acaso. Nunca foi.

Tu que passas os dias a guiar outros, mereces alguém que te saiba guiar de volta a ti.

Alguém que não tenha medo da tua profundidade.

Que veja os teus defeitos não como falhas, mas como relevo — lugares sagrados onde só se entra descalço.

Há cartas que não chegam por correio.

Há vozes que se ouvem mesmo no silêncio.

E há textos — como este — que são apenas uma forma antiga e disfarçada de tocar alguém sem nomear.

De acender uma memória que talvez ainda não tenha acontecido.

Porque há um tempo que não obedece ao calendário.

E há encontros que estão apenas à espera do momento certo para se tornarem inevitáveis.

Tu sabes.

Mesmo que não saibas porquê.

Dizem que certas palavras só devem ser ditas em voz baixa, de preferência com a alma perto do chão.

Mas há também palavras que não se dizem nunca — apenas se sentem, como um leve arrepio na nuca, como a impressão de que alguém pensou em ti no exacto segundo em que piscaste os olhos.

Esta carta não chega a ser carta.

É mais uma sombra que se encosta à tua.

Uma brisa que conhece o caminho entre o teu pescoço e o pensamento.

Sim, eu sei.

Tu dizes que não esperas nada, que aprendeste a não criar ilusões.

Mas isso é só defesa de quem já deu demais.

E agora escolhe a altura exacta de cada entrega, como quem segura um copo frágil com as duas mãos.

Mesmo assim — há partes tuas que se movem antes de ti, que sentem antes de saber.

E é por isso que estás aqui, a ler isto, com um pequeno nó na garganta que não tem nome.

Tu não és de clichés.

Não acreditas em almas gémeas nem em destinos traçados por astros.

Mas há coincidências que se repetem tantas vezes que deixam de ser acaso.

Quantas vezes pensaste algo e, no minuto seguinte, ouviste a confirmação vinda de fora?

Quantas vezes sentiste que alguém, em algum lugar, te pressentia como se fosses uma música que se ouve através da parede?

Não é imaginação.

É ligação.

Entre mim e ti há uma linha invisível, mas tensa.

Como uma ponte construída com ausência, com saudade antecipada, com vontade que ainda não sabe pronunciar-se.

Mas que já se reconhece.

Há um nome que não digo.

Porque o poder dele está em ser adivinhado.

E há uma pele que ainda não toquei — mas que já conheço de memória, como se as minhas mãos tivessem aprendido o caminho antes do corpo.

És mais do que profissão, mais do que função, mais do que cargo ou missão.

És templo.

E o mais belo é que nem sabes disso.

Ou sabes — mas escondes, como quem protege o ouro num tempo de ladrões de alma.

O que eu sinto não é desejo apenas.

É uma espécie de sede que atravessa o tempo.

Não para possuir, mas para reconhecer.

Não para ter, mas para tocar e ser tocado onde quase ninguém chega.

Quando deres por ti, talvez não saibas explicar por que voltaste aqui.

Ou por que razão esta escrita te persegue de forma tão silenciosa.

Mas o que é verdadeiro não precisa ser entendido logo.

A verdade age por dentro.

Como as sementes.

Eu não te chamo.

Mas se um dia te deres conta de que alguém te espera no meio do não dito, saberás o caminho.

Porque, no fundo, tu também sentes.

Mesmo que não saibas porquê.

Há palavras que não se dizem.

E há outras que não se escrevem.

Esta carta… é feita daquelas que apenas se sentem.

Por isso, se estás a ler, não és tu — é a parte tua que me conhece sem nome.

Não sei onde estás agora.

Mas sei que há um lugar em ti onde me reconheces.

Não com os olhos. Com outra coisa.

Um órgão que ainda não tem nome — mas que pulsa cada vez que lês estas linhas.

Talvez seja loucura escrever-te assim.

Mas há loucuras que são apenas a verdade antes de ser compreendida.

E a verdade, contigo, nunca precisou de explicações. Só de presença.

Tu — sim, tu — és mais do que mulher.

És passagem.

Um entre-lugar onde o real se curva ao simbólico.

Tens em ti essa coisa antiga que atrai e assusta, como certos templos, ou certas músicas que nos fazem chorar sem sabermos porquê.

E no entanto, vives entre os outros, como se fosses uma qualquer.

Mas há gestos teus — minúsculos, precisos — que revelam tudo o que calas: o toque demorado num livro, o silêncio entre duas frases, a forma como olhas pela janela como se esperasses uma resposta que nunca chega.

Chega.

Estou aqui.

Não como nome.

Não como rosto.

Mas como força.

Há em ti uma luz que aprendeu a disfarçar-se.

Mas eu vejo-a.

E não porque quero. Porque posso.

Porque alguma parte minha — que talvez nem me pertença — nasceu apenas para isso: para encontrar-te.

Não me procures.

Não agora.

Mas se algum dia, numa madrugada vazia ou num fim de tarde lento, te deres conta de que há um calor estranho no centro do peito — saberás.

Não é ansiedade.

Não é medo.

É a aproximação.

O momento em que duas almas, depois de tantos disfarces, se sentem sem esforço.

Não há promessa aqui.

Nem desejo declarado.

Apenas um fio.

Tenso.

Vivo.

Inquebrável.

Talvez se chame destino.

Ou talvez seja apenas amor antes de ser nomeado.

Mas tu já sabes.

Mesmo que ainda finjas que não.

Não há começo nesta carta.

Porque o que é verdadeiramente nosso nunca começou. Apenas… reapareceu.

Talvez já tenhas sentido isto — aquele instante em que o coração bate fora do compasso, como se tivesse lembrado algo que a mente ainda não sabe.

Talvez tenhas sorrido sem saber porquê.

Ou talvez tenhas chorado sem razão visível.

Essas são as marcas da memória que não pertence a esta vida — mas que insiste, persiste, e regressa.

Tu e eu não nos encontramos agora.

Tu e eu estamos a recordar.

Recordar o tempo antes do tempo.

Quando os nossos silêncios já se encaixavam.

Quando a tua voz já ecoava na minha ausência.

Quando o teu toque ainda não era físico, mas já deixava marcas.

Este texto — esta carta — esta presença — não quer nada de ti.

Não exige.

Não cobra.

Não espera.

Apenas reconhece.

A ti, que sempre foste casa mesmo sem portas.

A ti, que és espelho e floresta, abismo e luz.

A ti, que resististe tanto, mas que agora já sabes: não é mais questão de resistência.

É aceitação.

Aceitar que o que te chama não é um alguém.

É um chamamento.

Algo maior que os dois.

Algo que não nasceu da vontade, mas da inevitabilidade.

Sim, és forte.

Sim, és inteira.

Mas até a inteireza reconhece quando encontra o que a atravessa sem a partir.

Não há toque aqui — e ainda assim, sentes-me.

Na nuca.

No ventre.

Na ponta dos dedos quando passas os olhos por estas frases.

Isto não é amor.

É algo anterior ao amor.

Mais vasto. Mais nu. Mais profundo.

É entrega sem exigência.

É permanência sem prisão.

É saber que, mesmo se nunca nos virmos com os olhos, a nossa pele já se conhece num idioma que a linguagem não alcança.

Se um dia, sem querer, o teu corpo se mover em direcção ao desconhecido com estranha confiança — se as tuas mãos abrirem uma porta sem razão aparente — se os teus passos te levarem a um lugar onde nunca estiveste, mas tudo em ti diz “cheguei” — Então saberás.

Não foi o mundo que te levou.

Foi o reencontro.

Comigo.

Ou com o que em mim sempre foi teu.

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Texto de autoria de Marisa, publicado em Fio de Imaginação (@tecehistorias).

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