"Carta aberta aos que se doem — e aos que fingem não doer"
Sim, estive em silêncio. Não por ausência de ideias — elas sempre fervilham. Não por falta de palavras — elas se atropelam na minha mente, como feras que querem sair. O silêncio foi escolha, não omissão. Às vezes é preciso deixar o mundo falar sozinho para perceber o quanto ele grita sem dizer nada.
Mas agora volto, com a calma de quem já chorou o suficiente e a frieza de quem já viu demais.
Escrevo para os que pedem mais textos. Os que dizem que encontram consolo nas minhas palavras, que sentem alívio por verem que alguém sente o que eles mesmos nunca souberam nomear. Eu os vejo. Com respeito e gratidão.
Mas escrevo sobretudo para os outros.
Para os que se incomodam.
Para os que leem e se sentem nus.
Para os que se ofendem — e não sabem porquê.
Para os que dizem "isso é exagero" porque não suportam encarar o espelho.
E, mais ainda, para os religiosos de fachada.
Os que carregam a Bíblia na mão e o veneno na língua.
Os que citam versículos enquanto julgam, condenam e crucificam todo o que não segue o seu teatro de pureza.
Sim, vamos falar sobre isso.
A máscara das religiões
Há quem confunda religião com verdade. Mas a religião — muitas vezes — é só um palco onde o ego se disfarça de fé. É uma fantasia coletiva onde poucos buscam Deus e muitos buscam controle, status, poder sobre os outros.
Quantos usam a fé como escudo para a própria hipocrisia?
Quantos se ajoelham aos domingos mas apunhalam de segunda a sábado?
Quantos jejuam da comida, mas se empanturram de malícia, mentira, inveja e cobiça?
Falam de Deus, mas não sabem perdoar.
Falam de amor, mas excluem quem pensa diferente.
Falam de humildade, mas não suportam ser contrariados.
O fanático religioso não é movido por fé — é movido por medo.
Medo de pensar por si. Medo de estar errado.
Por isso se agarra a dogmas como náufrago a um pedaço de madeira podre.
Prefere viver uma mentira confortável do que encarar a dor da verdade.
O fanático precisa que o outro esteja errado para se sentir salvo.
Precisa apontar, julgar, excluir, condenar — porque é mais fácil enxergar o diabo nos outros do que reconhecer o inferno dentro de si.
Os crentes dissimulados
E os dissimulados? Aqueles que sorriem com o rosto e odeiam com os olhos?
Aqueles que decoram frases motivacionais, mas não suportam ver ninguém crescer?
Vivem de aparência. De frases feitas. De elogios falsos e críticas veladas.
Dizem “Deus te abençoe”, mas torcem para ver tua queda.
Aplaudem de pé quando você se cala — porque a sua voz os ameaça.
É preciso dizer: tem muito crente que não crê em nada além do próprio umbigo.
Tem muito pastor de si mesmo, apóstolo da arrogância, missionário da manipulação.
Gente que nunca leu a própria alma, mas vive pregando sobre salvação.
Os defeitos mal disfarçados de virtudes
Vamos ser claros. Há pessoas que se escondem atrás de etiquetas bonitas para justificar o que têm de pior.
Chamam orgulho de autoestima.
Chamam grosseria de sinceridade.
Chamam frieza de racionalidade.
Chamam covardia de fé — "vou orar", dizem, quando na verdade estão fugindo da responsabilidade.
São mestres na arte de disfarçar o ego.
De usar palavras bonitas para esconder intenções podres.
Falam em propósito, mas não têm coragem de enfrentar seus vícios.
Falam em missão, mas só querem atenção.
A bondade virou moeda social.
A empatia é performática.
A humildade é ensaiada.
A espiritualidade virou hashtag.
Não me venham com encenações.
Não suporto a teatralidade da alma.
Prefiro o pecador honesto ao santo fingido.
A missão das palavras
E é por isso que escrevo. Para cortar. Para sacudir. Para abrir feridas onde ainda há infecção escondida.
As palavras que trago não são para acalmar — são para despertar.
Se consola, que bom. Se perturba, melhor ainda.
Porque só se incomoda quem tem algo para enfrentar.
Agradeço a Deus por isso.
Não pelo talento. Mas pelo incômodo que provoco.
Se minhas palavras acordam, ferem, libertam, mostram o que muitos evitam — então estou no caminho certo.
E você, que me lê até aqui, sabe bem:
Se sentiu alívio, há verdade.
Se sentiu dor, há necessidade.
E se sentiu raiva, talvez seja hora de arrancar a máscara.
Como resposta a várias pessoas que pediram, vou fazer algo fantástico e elaborado. Perfeito. Então vou fazer disto uma série. Uma coletânea de textos que não só expõem, mas desnudam — sem piedade, sem verniz, sem disfarces. Uma espécie de autópsia moral, emocional e espiritual da hipocrisia humana. Cada texto vai ser um espelho e uma lâmina. E como prometido, vou falar sobre tudo: religião, espiritualidade, orgulho, humildade forjada, empatia de vitrine, falsidade emocional, egos inflados e almas vazias.
O Prólogo da série — o manifesto que vai abrir os trabalhos.
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Texto de autoria de Marisa, publicado em Fio de Imaginação (@tecehistorias).
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