"15/07/25 - Quase secreto..."
Faz muito tempo que deixei de me culpar. Foi um processo silencioso, quase secreto, como quem aprende a desapertar lentamente as amarras que trazia dentro do peito. Comecei a olhar-me com outros olhos — não os olhos duros da exigência, mas os olhos ternos de quem sabe que viver é, também, falhar. Concedo-me sempre, sem hesitação, o direito de errar. Porque errar faz parte do caminho, e a perfeição… a perfeição nunca foi, nem será, a condição da minha existência.
Não vivo de versões inventadas de mim. Sou inteira no que sou: imperfeita, frágil, corajosa, tantas vezes contraditória. Há uma liberdade infinita em assumir que não preciso de caber no molde de ninguém, nem sequer no meu. Ser autêntica dói, às vezes; expõe-me. Mas essa exposição é também a minha força, porque é nela que encontro verdade.
Recomeçar nunca foi, para mim, um acto de apagar o que fui. Antes pelo contrário: é pegar nas minhas falhas, nas minhas dores e nas minhas memórias, e transformá-las em matéria-prima para construir quem escolho ser agora. É ter a ousadia de dizer, mesmo com medo: ainda acredito em mim. E acreditar de verdade, não por vaidade, mas por consciência de que sou maior do que os meus erros.
Durante muito tempo, esperei por esse tal momento certo. Como quem espera pela maré perfeita para lançar o barco ao mar. Mas percebi que o momento não chega sozinho, não se anuncia com clarins nem promessas. O momento nasce no exacto instante em que decido agir, apesar do medo, apesar da dúvida. É sempre agora. Sempre.
Já não carrego a culpa como quem arrasta correntes. Troquei esse peso pelo leve sopro da esperança, que me empurra para a frente. Se errar, que seja. Corrijo, aprendo, recomeço. Já não me importa tanto tropeçar; importa-me não desistir de caminhar. Porque a vida não é um trilho sem falhas — é um caminho onde cada queda me ensina a erguer-me com mais sabedoria.
Percebo hoje que não era tanto o fracasso que temia, mas a imensidão do que poderia conquistar se ousasse acreditar verdadeiramente em mim. É estranho: às vezes, o maior medo não é o de cair, mas o de voar. Porque voar exige desapego das culpas, das vozes alheias, dos medos herdados.
O dinheiro, as opiniões dos outros, as expectativas que depositaram em mim… tudo isso pesa. Mas nada é tão pesado como viver só a meio, sufocar os meus sonhos por receio de incomodar. E eu já não quero viver assim: quero viver inteira, mesmo que isso me torne vulnerável, mesmo que isso me obrigue a enfrentar as minhas próprias sombras.
Recomeçar não é sinal de fraqueza. É, talvez, a forma mais pura de coragem. É ter a humildade de reconhecer que ainda não cheguei, mas também a grandeza de não desistir. É saber que mereço tentar de novo — não porque garanto que vou vencer, mas porque tenho o direito de tentar.
Hoje, não aceito apenas sobreviver. Quero viver com a intensidade de quem sabe que cada batida do coração é única. Quero rir até doer a barriga, chorar sem pedir desculpa, abraçar com força, dizer que amo sem medir palavras. Quero ser inteira nas minhas quedas e nas minhas vitórias.
Mereço encontrar a minha própria verdade. Não a verdade que me impuseram, nem a que inventei para agradar, mas aquela que nasce no silêncio onde só eu chego, onde Deus me encontra e me recorda que sou filha do possível e do impossível. Mereço amar-me mesmo quando erro, respeitar-me mesmo quando vacilo, abraçar-me mesmo quando ninguém mais o faz.
E sei, com a serenidade de quem já caiu vezes sem conta, que não importa quantas vezes tropeço: importa quantas vezes escolho levantar-me. Porque sou maior do que qualquer queda, maior do que qualquer medo, maior até do que a imagem que às vezes crio de mim.
A vida não acontece no futuro ideal que desenho na imaginação; acontece aqui, neste exacto momento em que decido recomeçar. E hoje, mais do que nunca, escolho-me. Escolho recomeçar quantas vezes for preciso. Escolho a imperfeição viva em vez da perfeição morta. Escolho a tentativa, o erro, o riso, a lágrima, o abraço, a entrega.
Porque, se cada queda for também um recomeço disfarçado, que venham as quedas — nelas aprendo a arte de renascer. Não quero uma vida perfeita; quero uma vida verdadeira. Uma vida onde possa ser quem sou, sem censura, sem medo de errar, com coragem de amar.
E assim vou, passo a passo, ainda que por vezes trémula, com Deus no coração e esperança no olhar. Porque sei que não se trata de quantas vezes caio, mas de quantas vezes me levanto. E levanto-me, sempre. Porque mereço, porque posso, porque quero. Porque sou, apesar de tudo, e acima de tudo, livre.
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Texto de autoria de Marisa, publicado em Fio de Imaginação (@tecehistorias).
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