"Há Pessoas que Nunca Entram nos Meus Textos. E Isso Não É Um Acidente."
Há quem acredite que um escritor escreve sobre quem conhece. Não. Um escritor escreve sobre aquilo que merece ser pensado. São coisas completamente diferentes. Conheço centenas de pessoas. Algumas há décadas. Cruzo-me com elas regularmente. Cumprimentamo-nos. Conversamos. Partilhamos espaço. E, no entanto, nunca lhes dediquei uma única linha. Nem uma frase. Nem uma metáfora. Nem sequer um adjetivo. Não por generosidade. Mas por absoluta falta de matéria-prima. Escrever exige combustível. Uma ideia. Uma contradição. Uma inteligência inesperada. Uma injustiça que obrigue a pensar. Uma conversa que sobreviva ao dia em que aconteceu. Alguma coisa. Qualquer coisa. E há pessoas que passam anos inteiros sem produzir um único pensamento digno de segunda leitura. Vivem em modo repetição. Não criam opiniões. Alugam-nas. Não formulam ideias. Partilham-nas. Não pensam. Reencaminham. São especialistas em devolver ao mundo exatamente aquilo que o mundo lhes entregou. Sem acrescentar uma vírgula. Con...