"Quando se perdeu!?"
Sabe, tenho pensado muito nisto ultimamente.
Quando você se perdeu?
Ás vezes pergunto-me em que momento exato se perdeu. Se foi numa conversa banal em que escolheu calar-se para não parecer demasiado intensa. Se foi quando sorriu por educação, mesmo quando tudo dentro de si gritava o contrário. Se foi naquele dia em que vestiu uma roupa que não gostava só porque queria encaixar. Talvez tenha sido quando aceitou um elogio que não lhe soou verdadeiro, mas fingiu que sim. Ou talvez tenha sido muito antes disso, quando começou a medir as suas palavras, a ajustar o seu tom, a observar-se de fora, como se fosse um quadro a ser constantemente corrigido.
O mais assustador é que não foi de repente. Se tivesse sido, talvez tivesse percebido mais cedo. Mas não, foi um processo lento, quase imperceptível, como a erosão de uma pedra que, com o tempo, vai perdendo os contornos, vai ficando lisa, polida, domesticada. E você foi se tornando isso: uma versão mais aceitável, mais contida, mais fácil de digerir. Começou a dizer apenas aquilo que achava que os outros queriam ouvir. Começou a esconder as partes de si que julgava "demasiado".
E foi assim que se perdeu!
Perdeu quando começou a medir as palavras antes de as deixar sair, com medo de que fossem mal interpretadas. Quando começou a ensaiar as respostas na cabeça antes de falar, para garantir que soavam bem, que não eram demasiado ríspidas, nem demasiado emotivas, nem demasiado nada. Perdeu quando começou a escolher as suas emoções como quem escolhe roupa para uma ocasião específica – sempre a tentar combinar com o ambiente, sempre a tentar encaixar.
Perdeu -se quando começou a querer agradar a toda a gente, menos a si.
E, no início, parecia estar a funcionar. As pessoas gostavam de si. Diziam que era sensata, equilibrada, fácil de lidar. Sentiu-se valorizada, reconhecida. Mas, aos poucos, esse reconhecimento começou a saber a pouco. Porque não era a si que estavam a aceitar, era a personagem que você construíu. E essa personagem, por mais perfeita que parecesse, não era real.
Sabe o que é pior? A solidão que vem com isso. Porque, quando deixa de ser você mesma para encaixar, os laços que cria não lhe pertencem verdadeiramente. Está rodeada de pessoas que gostam de uma versão filtrada de si, não da sua essência. E isso é aterrador.
Foram tantos os momentos em que quis ser autêntica e hesitou. Pequenos segundos em que sentiu vontade de falar, mas recuou. E, quanto mais vezes recuou, mais foi se distanciando de si mesma. Começou a duvidar do que realmente queria, do que realmente sentia. Começou a ver-se através dos olhos dos outros, a medir cada gesto, cada opinião, cada escolha. Começou a perguntar-se, antes de fazer qualquer coisa: "Será que isto faz sentido para os outros?" e esqueceu-se de perguntar: "Será que isto faz sentido para mim?"
E agora? Agora olha para trás e sente um aperto no peito. Porque sabe que, em algum lugar dentro de si, ainda existe aquela pessoa espontânea, intensa, verdadeira. Mas está soterrada sob camadas de medo, de necessidade de aceitação, de anos a tentar ser aquilo que não é.
E está cansada. Cansada de se conter, de se moldar, de tentar caber em espaços que não foram feitos para si. Cansada de se olhar ao espelho e ver uma versão diluída do que já foi.
Será que vai reaprender a ser você própria. Será que vai falar sem medo, rir sem pensar se estás a ser "demasiado", sentir sem pedir desculpa. Será que vai recuperar aquela voz que foi calando, aquelas partes de si que abandonou pelo caminho.
Sabe que não vai ser fácil. Sabe que, para se reencontrar, vai ter de desaprender tudo o que lhe ensinaram sobre agradar, sobre ser perfeita, sobre nunca desiludir.
Mas está disposta?
Está disposta a perder quem não a aceita na sua totalidade, se isso significar que pode voltar a encontrar-se.
Porque, no final, a única coisa pior do que ser rejeitada pelos outros é ser rejeitada por si mesma. E você não vai querer mais viver a ser uma estranha dentro da sua própria pele.
Não sei o porquê de estas palavras estarem constantemente a passar na minha mente desde manhã. Fui fazer o voluntariado e enquanto falava com Deus estas palavras estavam sempre a passar. Não sei porquê, eu não agrado aos outros, não calo e não sou uma estranha na minha pele, as pessoas que mais convivem comigo diariamente não parecem desconfortáveis na sua pele. Mas incrivelmente tenho a necessidade de as escrever.
"Texto de autoria de(tecehistorias ) <Marisa>, publicado em Fios de Imaginação(@"fios de imaginação") (@tecehistorias)."
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