"Fé em Cada Passo"

Ontem foi um dia longo, intenso e profundamente enriquecedor. Acordei antes do sol despontar, quando a noite ainda abraçava o silêncio, e parti para o Dia do Deserto. Eram 05:40 quando iniciámos a viagem, e à medida que a estrada se desenrolava sob as rodas, sentia que me dirigia não apenas para Fátima, mas para um encontro íntimo comigo mesma e com Deus.

Chegámos cedo, e o santuário envolveu-nos com a sua aura de paz e transcendência. Há lugares que não precisam de palavras para se fazerem sentir—Fátima é um deles. Cada passo, cada murmúrio de oração, cada vela acesa carrega histórias, pedidos e gratidão. É um lugar onde o tempo se suspende, onde o coração se expande e se desnuda sem medo. Foi maravilhoso.

Regressámos já a noite caía, e o relógio marcava 19:30 passadas. O corpo pedia repouso, mas o espírito, inflamado, ansiava por mais. Segui quase diretamente para a reunião da peregrinação de maio. Há cansaços que não pesam, apenas moldam a nossa entrega.

Hoje, o dia trouxe outra celebração: o aniversário de um dos movimentos a que pertenço. Confesso que a princípio hesitei, relutante. Mas a fé, essa força silenciosa que me move, sussurrou que tudo correria bem. E foi com essa confiança que me juntei ao coro e participei no ofertório. Não sou dotada para o canto—ou melhor, canto, mas desafino, tropeço nas notas, danço entre tons incertos. Ainda assim, entreguei-me. A música não é feita apenas de técnica, mas de alma, e a minha intenção era pura. Talvez os nervos me tenham traído e escapado uma ou outra palavra menos própria, mas Deus conhece o coração, e sei que Ele sorriu, indulgente, perante a minha imperfeição tão humana. No fim, tudo correu bem, porque o essencial nunca está no detalhe técnico, mas na entrega sincera.

A tarde trouxe outro encontro, outra reunião, desta vez com um grupo diferente, mas igualmente essencial no meu caminho. Foi mana para o espírito, um momento de partilha, de crescimento, de comunhão. Há algo de extraordinário em reunir-se com quem busca o mesmo horizonte, com quem questiona, aprofunda, deseja compreender mais e amar melhor.

Por vezes, sinto uma ponta de tristeza por não poder partilhar plenamente tudo o que aprendo. Em casa, solto fragmentos, pequenas sementes de reflexão, respeitando sempre o tempo e a forma de estar dos meus familiares. A fé não se impõe, não se exige. Não é moeda de troca por bênçãos ou bens. Não é uma obrigação fria e calculada. A fé é coração. É amor. Só amor.

E amar é, no fundo, a mais sublime de todas as orações.

Respeito muito os meus amigos. São parte fundamental da minha vida, e com eles converso sobre tudo—nossas rotinas, as alegrias e as lutas, política, ciência, filosofia e, com muita pena minha, religião, pouco. Gostaria que fosse diferente, mas aceito. Normalmente, até escuto mais do que falo. Há momentos em que as palavras são necessárias, mas há outros em que o silêncio compreensivo vale mais do que qualquer discurso. Eles confiam em mim e procuram, às vezes sem dizer diretamente, um conselho sensato, uma opinião honesta, um gesto de compaixão. Buscam empatia, altruísmo, generosidade, carinho e, no final, um abraço apertadinho que diz tudo o que as palavras não conseguem.

E eu? Eu não imponho nada. Dou apenas o que me permitem, o que deixam. Porque amar também é saber respeitar os espaços do outro, sem querer preencher cada vazio, sem tentar mudar o que não me cabe mudar. É dar sem esperar retorno, é estar presente sem sufocar, é ser abrigo sem prender.

Porque, no final, a fé e o amor partilham o mesmo segredo: só são verdadeiros quando são livres.

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"Texto de autoria de(tecehistorias ) <Marisa>, publicado em Fios de Imaginação(@"fios de imaginação") (@tecehistorias)."

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