"Entre a tensão e o tesão"
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Uma breve meditação linguística sobre o corpo, a palavra e o tempo
Confesso: há títulos que nos capturam antes mesmo de compreendermos porquê. Não pela superficialidade do impacto imediato, mas pela inquietação silenciosa que deixam a ecoar no pensamento. Foi precisamente isso que me aconteceu ao deparar-me com uma manchete aparentemente trivial, mas linguisticamente provocadora: a associação entre um gesto doméstico banal e uma palavra carregada de história, ambiguidade e, sobretudo, transformação semântica.
E foi nesse instante — entre o sorriso e a reflexão — que a minha curiosidade se instalou. Porque há palavras que não são apenas palavras: são trajectos. São camadas de tempo, de cultura, de moralidade e de uso. “Tesão” é uma delas.
Trata-se, desde logo, de um termo que, em muitos contextos, permanece envolto numa certa reserva social. Classificado como tabuísmo, é frequentemente evitado em discursos formais ou familiares, como se a própria palavra carregasse um excesso de corpo que a linguagem civilizada tenta, ainda hoje, disciplinar. No entanto, essa mesma palavra, aparentemente vulgar, revela uma genealogia surpreendentemente nobre.
A sua origem remonta ao latim tensionem, acusativo de tensio, cujo significado primeiro é simplesmente “tensão” — o estado daquilo que se encontra esticado, distendido, submetido a força. É aqui que começa o verdadeiro fascínio: perceber que “tesão” e “tensão” não são opostos, mas irmãs etimológicas, divergindo apenas no percurso evolutivo que cada uma percorreu dentro da língua portuguesa.
Enquanto “tensão” seguiu uma via erudita, preservando maior proximidade formal com o latim, “tesão” desenvolveu-se pela via popular, sofrendo fenómenos fonéticos típicos, como a síncope do n, que também encontramos em palavras como luna (lua), bona (boa), manus (mão) ou mensa (mesa). Este processo, longe de ser um simples detalhe técnico, revela a vitalidade da língua na sua adaptação ao uso quotidiano.
Originalmente, o termo não possuía qualquer conotação obscena. Pelo contrário, designava a condição de algo “teso” — isto é, rígido, firme, endurecido. A palavra aplicava-se a múltiplos contextos: um solo teso, difícil de trabalhar; um corpo teso, já sem vida; um carácter teso, firme ou severo; até mesmo uma situação difícil ou exigente podia ser descrita com esse qualificativo.
É particularmente revelador observar que, no século XVII, o Padre António Vieira empregava o termo num registo perfeitamente legítimo e desprovido de qualquer carga vulgar. Num dos seus sermões, ao comentar as lamentações de Jó, escreve: “queixava-se do tesão de suas penas, demandando e altercando, se não lhe havia de redimir e afrouxar um pouco o rigor delas”. Aqui, “tesão” surge no seu sentido original de dureza, intensidade, severidade — nada mais.
Mas a língua não é estática. É viva, permeável, moldada pelo uso coletivo. E foi precisamente o uso popular que deslocou o centro semântico da palavra. A associação entre rigidez física e certas manifestações do corpo humano — particularmente no masculino — acabou por reconfigurar o significado do termo. O que antes designava apenas dureza passou a ser, progressivamente, associado à excitação sexual.
Este desvio semântico não é, de forma alguma, incomum. A linguagem tende a corporalizar-se, a apropriar-se da experiência sensível para nomear estados internos. E, nesse processo, o que era neutro pode tornar-se carregado, o que era descritivo pode tornar-se sugestivo.
Já no século XVIII, António de Morais Silva lamentava essa transformação, observando que muitos evitavam o uso da palavra devido à sua associação com “uma parte obscena do homem”. No século XIX, a mesma era já considerada imprópria para a “boa sociedade”. E, no século XX, o seu significado estava praticamente fixado no domínio da sexualidade masculina, como documentado em estudos de linguagem popular.
Contudo, a evolução não se deteve aí. Nas últimas décadas, assistimos a uma nova expansão semântica. “Tesão” deixou de ser exclusivamente associado ao corpo e passou a designar algo mais amplo: energia vital, entusiasmo, intensidade emocional. Hoje, pode referir-se tanto a desejo quanto a paixão pela vida, motivação, impulso criativo.
Curiosamente, em determinadas regiões, o termo perdeu quase por completo a sua carga sexual, sendo utilizado como sinónimo de “excelente”, “interessante” ou “cativante”. O que outrora foi considerado impróprio regressa, assim, a uma forma de inocência semântica — ainda que transformada.
E é precisamente isso que me fascina: a capacidade da linguagem de se reinventar, de atravessar séculos, de absorver o corpo, a moral, o tempo e a cultura, sem nunca perder a sua essência dinâmica.
Entre a tensão e o tesão existe, afinal, mais do que uma semelhança fonética. Existe uma história partilhada, uma bifurcação evolutiva, uma prova de que as palavras vivem, respiram e se transformam connosco.
E talvez seja isso que mais me intriga — enquanto mulher curiosa, atenta ao detalhe e à complexidade do mundo: perceber que, por detrás de uma palavra aparentemente simples, se esconde um percurso inteiro de humanidade.
Diz-me, sinceramente: como não considerar a etimologia — e a própria linguagem — um verdadeiro prazer intelectual?
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