"Dia da mulher... Mulher todos os dias"
Eu, em particular, não comemoro o dia da mulher; comemoro, sim, as conquistas que nele se assinalam. Celebro os passos firmes dados ao longo da história, as vozes que se ergueram quando o silêncio era imposto, as mãos que trabalharam, lutaram e resistiram para que hoje pudéssemos ocupar espaços que outrora nos eram vedados. Porque, se essas conquistas não tivessem existido, muitas de nós ainda viveríamos circunscritas a horizontes estreitos, privadas de escolhas, de direitos e de voz.
Este não é, para mim, um dia de exaltação vazia, mas um momento de memória e consciência. Um dia que nos recorda que cada direito foi conquistado — nunca oferecido — e que cada avanço foi tecido com coragem, perseverança e, muitas vezes, sacrifício. As mulheres que vieram antes de nós abriram caminhos onde apenas havia muros; e é sobre esses caminhos que hoje caminhamos, com a responsabilidade de não esquecer o preço que foi pago para que o futuro fosse mais amplo.
Ainda assim, confesso que há outra data que me toca de forma mais íntima: o dia da mãe. Não porque uma mulher valha mais por ser mãe — longe disso — mas porque, na minha própria história, esse foi um momento de profunda transformação. Eu nasci mulher, mas não nasci mãe. Tornei-me mãe no instante irrepetível em que nasceu a minha filha. Foi nesse momento que compreendi que a maternidade não é um título, mas um encontro: um encontro entre duas vidas que, a partir daí, passam a crescer lado a lado.
E, ainda assim, a vida mostrou-me que até aquilo que julgamos conhecer pode voltar a surpreender-nos. Quando tornei a ser mãe, passados doze anos e nove meses, também esse momento foi profundamente irrepetível. Porque nenhuma maternidade se repete verdadeiramente; cada filho inaugura um mundo novo dentro de nós, uma forma distinta de amar, de aprender e de crescer.
As grandes mulheres da minha vida são, no fundo, duas origens que se entrelaçam: quem me teve e quem eu tive. A mulher que me deu a vida e as vidas que eu trouxe ao mundo. Entre essas margens corre o rio da minha própria existência, onde aprendo, todos os dias, a ser simultaneamente filha e mãe, memória e promessa.
Mas a minha vida é também habitada por muitas outras mulheres admiráveis — mulheres cuja inteligência, força, sensibilidade e carácter me inspiram profundamente. Mulheres que, de formas discretas ou grandiosas, iluminam o caminho com o exemplo da sua dignidade, da sua coragem e da sua humanidade.
A todas elas — às que vieram antes, às que caminham ao meu lado e às que ainda hão de vir — deixo o meu mais sincero agradecimento. Porque ser mulher nunca foi apenas uma condição: é também uma herança, uma construção e, acima de tudo, uma responsabilidade partilhada.
E é por isso que, neste dia, mais do que celebrar a palavra “mulher”, celebro a história viva das mulheres que nos ensinaram — e continuam a ensinar — que a liberdade se conquista, que a dignidade se afirma e que o futuro se escreve sempre com coragem.
Comentários
Enviar um comentário