"Escolha"
Se me perguntarem como estou, direi — com uma serenidade que não se explica, apenas se conquista: estou em movimento.
Não é pressa, nem fuga.
É escolha.
Aprendi, não sem resistência, que há pesos que não nos pertencem — e outros que, tendo pertencido, já cumpriram o seu tempo. Carregá-los por mais do que o necessário não é lealdade à memória, é negligência para com o presente. E o presente, esse espaço tão exigente quanto precioso, pede leveza para ser vivido com inteireza.
Por isso, parei.
Não para desistir, mas para rever.
Abri a mala — essa metáfora íntima onde guardamos o que fomos, o que sentimos, o que insistimos em não largar — e tive a coragem de olhar até ao fundo. Sem filtros. Sem justificações. Retirei o que pesava mais do que acrescentava, o que ocupava espaço sem trazer sentido, o que já não dialogava com quem me tornei.
Esvaziar, afinal, não é perder.
É preparar.
Limpei o que ficou. Não por necessidade estética, mas por respeito ao que ainda virá. Porque aquilo que escolhemos levar connosco deve ter lugar, não apenas espaço. Deve respirar, não apenas existir.
E agora… sigo.
Com menos, sim — mas com mais consciência.
Levo comigo o essencial: a capacidade de sentir, de escolher, de recomeçar sem dramatizar. E deixo espaço — deliberadamente — para o que ainda não conheço. Para sensações que ainda não vivi, para encontros que ainda não aconteceram, para versões de mim que ainda não descobri.
Há uma beleza subtil neste estado de abertura: não é ingenuidade, é disponibilidade lúcida. Não é vazio, é potencial.
Estou a preencher-me de novo — mas desta vez com critério.
Com aquilo que acrescenta, que expande, que respeita.
Porque já não procuro acumular.
Procuro significar.
E assim, com a mala mais leve e o olhar mais atento,
vou.
Sem excesso.
Sem ruído.
Sem o peso do que já não me define.
Vou — inteira naquilo que sou hoje,
e disponível para tudo o que ainda posso vir a ser.
E isso, mais do que suficiente,
é liberdade em estado puro.
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