"Finalmente"

 Finalmente, permito-me.

Há textos que ficaram em suspenso — não por falta de voz, mas por excesso de ruído à volta. Palavras que nasceram inteiras, mas que foram, ainda assim, silenciadas pela possibilidade de má interpretação, pela pressa alheia em se reconhecer onde nunca esteve. Hoje, deixo-os respirar. E, ao fazê-lo, respiro também.

Sou, assumidamente, uma escrevinhadora. Não por método, nem por disciplina rígida — mas por natureza. Escrevo como existo: sem compartimentos estanques, sem temas impostos, sem necessidade de agradar a expectativas externas. Em mim, tudo pode ser matéria de reflexão — da fé que me sustenta à família que me ancora, de um livro que me inquieta a um filme que me atravessa, de um sentimento que me desorganiza a um pensamento que insiste em não me largar.

E sim, também escrevo sobre desejo.

Não como provocação gratuita, nem como exibição vazia, mas como parte intrínseca da experiência humana. Com naturalidade. Com inteligência. Por vezes com leveza, até com humor — porque há uma beleza particular em desdramatizar o que tantos insistem em esconder atrás de pudores rígidos. O desejo, quando tratado com consciência, não diminui — revela.

Na conversa, como na escrita, sou assim: espontânea, curiosa, por vezes provocadora — não para ferir, mas para quebrar tensões, para abrir espaço ao riso, à desconstrução, à liberdade de ser sem máscaras. Provocar, para mim, é muitas vezes um convite: a pensar, a sentir, a sair do lugar confortável do previsível.

Mas há limites.

E esses são claros, firmes, inegociáveis.

Num mundo onde tantos procuram espelhos para as suas próprias narrativas, recuso ser matéria-prima para interpretações distorcidas ou vitimizações convenientes. Não escrevo para servir susceptibilidades, nem para alimentar egos que se colocam no centro de tudo o que lêem. Os meus textos não têm destinatários ocultos — têm intenção, têm identidade, têm raiz.

Se alguém se vê onde nunca esteve,
isso já não é sobre mim.

Por isso, houve textos que esperei para libertar. Não por medo — mas por discernimento. Porque há momentos em que o silêncio é mais estratégico do que a exposição. E há contextos que não merecem a entrega de algo que foi escrito com verdade.

Hoje, esse tempo passou.

Escrevo como sou.
Com densidade, quando assim o sinto.
Com leveza, quando assim me nasce.
Com profundidade, quando assim me exige.
E, por vezes, com um toque de irreverência que não pede licença.

Porque escrever, para mim, nunca foi um acto neutro.
É extensão.
É afirmação.
É liberdade.

E essa — essa não está disponível para interpretações alheias,
nem para serviços menores.

É minha.

Inteira.

E, finalmente…

livre.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

"Estudo capitulo 5"