"Provoca-me"
Provoca-me.
Mas faz disso uma arte — não um impulso bruto, não um gesto apressado. Em mim, a provocação não vive do excesso, vive da precisão. É um jogo de inteligência, de pausas bem colocadas, de intenções que se insinuam antes de se revelarem. Não me alcanças pelo óbvio — encontras-me no detalhe.
Desafia-me.
Mas não confundas desafio com confronto vazio. Quero a tensão que nasce entre duas mentes que se reconhecem à altura uma da outra. Questiona-me, sim — mas sustenta-te. Aproxima-te com argumentos, com presença, com essa firmeza tranquila de quem não precisa de elevar a voz para se fazer sentir. Há uma sedução rara na lucidez.
Tira-me do sério…
Mas compreende o que isso significa em mim. Não são gestos abruptos, nem palavras soltas. É um desvio subtil na respiração, um silêncio que se prolonga meio segundo além do habitual, um olhar que permanece quando já devia ter partido. É nesse intervalo — quase imperceptível — que me perdes… e me encontras.
Tira-me do tédio.
Se conseguires.
Porque o tédio, para mim, é a ausência de densidade. Não me interessa o que é fácil, o que é previsível, o que se repete sem alma. Quero o que desafia sem forçar, o que envolve sem invadir, o que desperta sem pedir licença. Há uma elegância no desejo quando ele é contido — quando não se expõe, mas se constrói.
Vira o meu mundo do avesso.
Mas antes… entra.
E entra devagar.
O meu mundo não se abre a quem bate com pressa. Há portas que cedem ao toque certo, não à insistência. Há espaços que se revelam a quem sabe esperar, observar, compreender. Não procuro intensidade vazia — procuro presença que permaneça mesmo quando tudo abranda.
Há em mim uma linguagem que não se diz —
insinua-se.
Está no modo como escuto,
na forma como sustento o olhar,
no silêncio que deixo crescer entre duas frases.
E quem sabe ler isso…
não precisa de mais nada.
Sou feita de controlo — mas também de rendição escolhida.
De lucidez — mas também de instinto.
De distância — até que alguém mereça a aproximação.
E quando isso acontece…
não há pressa.
Há ritmo.
Não há excesso.
Há profundidade.
Não há urgência.
Há vontade.
Sou pragmática o suficiente para não me perder em ilusões,
mas sensível o bastante para reconhecer quando algo é real.
E o real não se anuncia —
sente-se.
Por isso, se quiseres provocar-me,
faz com que cada gesto tenha intenção.
Que cada palavra carregue significado.
Que cada silêncio diga mais do que qualquer discurso.
Aproxima-te sem invadir.
Toca sem pressa.
Olha como quem compreende, não como quem quer possuir.
Porque o que verdadeiramente me desarma
não é a força —
é a consciência.
E aquilo que em mim se pode despertar…
não responde ao impulso,
nem cede ao imediato.
Constrói-se.
E quando finalmente acontece,
não é apenas provocação.
É presença.
É tensão.
É escolha.
E, sobretudo…
não é, nunca será,
simples assim.
Comentários
Enviar um comentário