A verdade, tantas vezes invocada como bandeira, não é um instrumento de conveniência. Não se molda à narrativa que mais convém. Existe, sim, num espaço intermédio entre versões — mas não valida a mentira, nem legitima a distorção.
Eu vivi a minha história. E aquilo que afirmo não nasce de suposições, nem de necessidade de aprovação, nem de construção artificial de imagem. Nasce da experiência, daquilo que senti, do que atravessei — e isso não é negociável.
E posso ouvir a tua versão, naturalmente. Mas ouvir não implica aceitar. Sobretudo quando o que chega é incoerente, fragmentado, atravessado por acusações veladas e por uma necessidade evidente de construir uma culpada. Quando isso acontece, não estamos perante duas verdades — estamos perante uma verdade e uma tentativa de a substituir.
A falsidade não é um comportamento ocasional. Não é um deslize. É um padrão. É uma estrutura de carácter. E quem escolhe agir através da distorção, do boato, da insinuação, da tentativa de isolamento do outro, não está a reagir — está a revelar-se.
Há quem viva como se a vida fosse um palco, vestindo personagens conforme a plateia. Há quem ensaie emoções, dramatize fragilidades, construa uma identidade baseada no olhar dos outros. Mas há algo que nunca se consegue ensaiar completamente: a reação. É na reação que a verdade escapa, que o verniz estala, que o carácter se expõe.
Eu recuso esse teatro. E digo-o com a serenidade de quem sabe que não saberia sequer desempenhar esse papel — não por escolha estética, mas por impossibilidade real. O meu corpo não compactua com o fingimento.
Existe uma condição, clinicamente reconhecida, chamada síndrome vasovagal. E nela, o corpo responde de forma involuntária a estímulos emocionais intensos — sobretudo aqueles ligados à injustiça, à pressão extrema, ao confronto emocional profundo. Quando a tensão se acumula, quando a emoção ultrapassa o limiar do suportável, o nervo vago reage, o corpo cede: a respiração altera-se, o oxigénio deixa de chegar ao cérebro como deveria, os sentidos falham momentaneamente.
Não é teatro. Não é escolha. Não é estratégia.
É fisiologia. É humano. É real.
E, paradoxalmente, até isso é usado contra mim — reinterpretado, distorcido, instrumentalizado como se fosse encenação. Como se até o involuntário pudesse ser manipulado para servir uma narrativa de vitimização.
Mas isso diz mais sobre quem o faz do que sobre mim. Porque é preciso uma ausência profunda de empatia — e, ouso dizê-lo, de consciência — para olhar para uma resposta física involuntária e transformá-la em argumento de ataque.
Não é do meu carácter ser brejeira, nem descer a um nível onde o ruído substitui o pensamento. Essa linguagem, essa forma de existir, não me pertence.
Eu não procuro aplausos. Não procuro razão. Procuro paz. E quem procura paz não entra em guerras que vivem da distorção.
Escolheste a pessoa errada para atacar. Não porque eu seja imune, mas porque não participo. Não alimento. Não respondo na mesma moeda.
Se precisas de uma narrativa, constrói-a. Se precisas de uma culpada, nomeia-a. Se precisas de palco, ocupa-o.
Mas fá-lo sozinha.
Eu caminho com os meus. Com quem observa, sente, conhece. Com quem distingue entre presença e performance, entre carácter e encenação.
Perdoei. Não por ingenuidade, mas por lucidez. Porque não carrego o peso de quem escolhe agir sem verdade.
E o tempo — esse — faz sempre o seu trabalho. Revela. Expõe. Alinha. Sem esforço, sem ruído.
Quem me conhecer verdadeiramente saberá. Não pelo que ouviu, mas pelo que viu, pelo que sentiu, pelo que permaneceu.
Sou mulher. Sou inteira. Sou consciente.
E não preciso de representar para existir.
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