"Não"

 Há um equívoco curioso — e, confesso, até ligeiramente cómico — na forma como algumas pessoas se aproximam dos outros: acreditam, com uma convicção quase admirável, que aquilo que imaginam corresponde àquilo que é. Como se a percepção fosse realidade. Como se a expectativa tivesse autoridade ontológica.

Não tem.

Convém esclarecer — com a serenidade possível e uma pitada de ironia — que eu não sou uma personagem moldável ao gosto de quem observa. Não sou um projecto em aberto à intervenção alheia, nem uma versão inacabada à espera que alguém venha “corrigir”. Não há aqui um manual de instruções disponível ao público, nem um botão de ajuste fino para alinhar com as tuas preferências.

A presunção, por mais elegante que se apresente, continua a ser apenas isso: presunção.

E é fascinante — no sentido quase antropológico do termo — como se instala essa expectativa de que eu deva agir como queres, pensar como idealizas, reagir como te é confortável. Como se a minha existência tivesse sido desenhada para validar a tua visão do mundo.

Permite-me a franqueza: não foi.

Não me conheces. E não, não é uma frase defensiva — é um facto. O que eu penso, o que elaboro internamente, o que questiono, o que construo em silêncio… pertence-me. Não está disponível para leitura superficial nem para interpretação apressada.

Quem sou?
Poucos sabem. E não por mistério forçado, mas porque a profundidade não se revela a quem procura atalhos.

Não sou monotemática — felizmente. A ideia de uma identidade unidimensional sempre me pareceu profundamente aborrecida. Não sou unilateral, nem previsível, nem linear. Seria, aliás, uma forma bastante eficiente de morrer em vida: tornar-me fácil de decifrar, confortável de catalogar, inofensiva na complexidade.

Sou muitas coisas.
E, por vezes, não sou nenhuma delas em estado fixo.

Há dias em que sou intensidade pura, quase excessiva, e outros em que me recolho num silêncio que diz mais do que qualquer discurso. Há momentos em que me expando, outros em que me retraio. E, no entanto, em todas essas variações, há uma coerência interna que não depende da tua compreensão para existir.

Sou luz — sim. Mas não essa luz decorativa, inofensiva, sempre disponível para iluminar o caminho dos outros enquanto me apago discretamente. Não. Sou luz consciente, com direcção, com intenção.

E sou escuridão também. Não aquela que se esconde por vergonha, mas aquela que se conhece, se nomeia e se integra. A escuridão não é ausência de valor — é profundidade não romantizada.

Sou boa — quando amo, quando cuido, quando me entrego com verdade.
E sou dura — quando estabeleço limites, quando digo “não”, quando recuso ser moldada para caber em narrativas que não são minhas.

Sou mulher. E isso, ao contrário do que alguns ainda insistem em simplificar, não é uma categoria — é um universo.

Sou paixão, mas não descontrolo.
Sou esplendor, mas não espetáculo.
Sou abismo, mas não queda.

E, já agora, para mantermos o nível de honestidade elevado: já atravessei o suficiente para não romantizar resistência. Já “comi o pão que o diabo amassou” — expressão popular, mas absolutamente eficaz. E, ironia das ironias, aprendi tanto nesse processo que hoje diria, com um certo humor ácido, que se alguém ainda anda a amassar pão por aí… provavelmente já não sou eu a temer o resultado.

Aprendi. Ajustei. Evoluí.

Domei os meus demónios — não os eliminei, porque isso seria ingenuidade — mas conheci-os, compreendi-os, coloquei-os no seu lugar. Estão cá. Presentes. Conscientes. Sob domínio.

E não, não é perigoso.
É lúcido.

Perigoso é fingir que não existem.

Agora, sejamos claros: se alguém decide ultrapassar limites que são meus, se alguém insiste em provocar onde sabe que há história, não encontrará uma versão passiva, domesticada, convenientemente silenciosa. Encontrará resposta. Não por capricho, mas por integridade.

Chamar a isso “erro” é uma simplificação confortável para quem nunca teve de se defender a sério. Eu chamo-lhe consciência de si.

E, ainda assim — e isto talvez seja o ponto que mais desconcerta quem prefere narrativas simples — eu acredito no bem. Acredito em Deus. Não como argumento, mas como eixo. Como referência que me impede de me perder naquilo que poderia facilmente tornar-me se deixasse apenas a reação comandar.

É precisamente por isso que gosto do meu espaço.

Não como fuga, mas como escolha. Como território onde não há representação, onde não há necessidade de corresponder, onde não há esforço para caber. Um lugar onde posso ser — inteira, contraditória, complexa, profundamente humana.

Se quiseres compreender-me, prepara-te para abandonar simplificações.
Se quiseres aproximar-te, vem sem moldes.

E se a tua expectativa era encontrar alguém fácil de definir, de gerir, de prever…

Então, com todo o respeito — e um ligeiro sorriso — escolheste a pessoa errada.

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