"Encontros"

 Há encontros aparentemente simples que, de forma inesperada, nos colocam diante de uma verdade humana profunda. Acontecem sem aviso: dois caminhos que se cruzam, duas infâncias que, por instantes, voltam a tocar-se. Foi isso que aconteceu hoje.

O meu filho encontrou um antigo colega.

Um menino com quem, em tempos, partilhou uma parte da infância — não apenas os dias de escola, mas aquele território único onde as crianças constroem amizades com uma naturalidade que os adultos muitas vezes já perderam. Havia recreios, brincadeiras, conversas de crianças que parecem pequenas aos olhos do mundo, mas que para elas são inteiras.

E, no entanto, quando se encontraram, algo essencial não estava presente.

A memória.

O meu filho não se lembrava dele.

No rosto do outro menino havia surpresa, talvez até uma ligeira incredulidade. Para ele, aquela ligação existia ainda com nitidez. Para o meu filho, porém, era como se aquele fragmento da história tivesse desaparecido.

Nesse momento senti um aperto no peito. Não por vergonha, nem por embaraço — mas por compreender o que aquele silêncio da memória realmente significava.

Porque não era um simples esquecimento.

Era um apagamento.

Expliquei à mãe do antigo colega aquilo que, ao longo do tempo, fui compreendendo — através da psicologia pedagógica, mas também através da observação paciente da complexidade humana. O meu filho não esqueceu apenas um colega. Ele esqueceu toda aquela escola, todo aquele período da sua vida.

E isto acontece mais vezes do que imaginamos.

A memória humana não é um arquivo neutro que guarda acontecimentos como quem arquiva documentos. A memória é um fenómeno vivo, dinâmico, profundamente entrelaçado com a emoção, com a segurança interior e com a necessidade fundamental de preservar a integridade psíquica. Aquilo que recordamos — e aquilo que deixamos de recordar — não depende apenas do que aconteceu, mas sobretudo de como aquilo foi vivido.

Quando uma criança atravessa experiências que a ferem profundamente, quando é confrontada com situações que ultrapassam a sua capacidade emocional de compreensão ou de integração, a mente pode activar mecanismos de defesa extremamente sofisticados. Entre esses mecanismos encontra-se aquilo que a psicologia descreve como amnésia defensiva ou amnésia motivada: um processo inconsciente através do qual o psiquismo reduz o acesso a memórias associadas a sofrimento intenso.

Não se trata de negar a realidade nem de apagar literalmente o passado. Trata-se antes de deslocar certas experiências para uma zona menos acessível da consciência, permitindo à pessoa continuar a desenvolver-se sem permanecer permanentemente ligada à dor que viveu.

Na infância, este processo pode ser ainda mais marcado. O cérebro da criança está em pleno desenvolvimento. As estruturas que organizam a memória autobiográfica — como o hipocampo — e as redes que regulam as emoções ainda estão a consolidar-se. Quando determinadas experiências se associam a sentimentos de medo, humilhação, insegurança ou sofrimento prolongado, a mente infantil pode optar por uma solução profundamente adaptativa: reorganizar o mapa das recordações.

Por vezes, isso significa esquecer pessoas.

Outras vezes, esquecer lugares.

E, em alguns casos, esquecer períodos inteiros da vida.

O meu filho esqueceu aquilo que tanto o feriu.

E, no fundo, ainda bem.

Porque esse esquecimento não é uma perda — é uma libertação. É o sinal de que a mente encontrou uma forma de proteger a sua integridade, de continuar a crescer sem carregar permanentemente o peso de experiências que não deveriam ter existido.

Há algo de extraordinariamente sábio no psiquismo humano. Mesmo quando a consciência não compreende plenamente o que aconteceu, o organismo psíquico procura caminhos para preservar o equilíbrio interior.

Por isso, o que hoje aconteceu não foi apenas um momento estranho entre duas crianças que já não partilham as mesmas memórias. Foi também a prova silenciosa de uma capacidade profundamente humana: a capacidade de sobreviver emocionalmente.

Infelizmente, existe uma verdade difícil que atravessa muitas histórias de infância. Quando os adultos falham — quando são injustos, negligentes ou, em situações mais graves, verdadeiramente perversos — raramente são eles que pagam imediatamente o preço das suas acções. Quem acaba por suportar o impacto são as crianças, com a sua sensibilidade ainda desprotegida.

Mas as crianças possuem também algo extraordinário: uma inteligência emocional instintiva que as ajuda a reconstruir-se.

Às vezes através do silêncio.
Às vezes através da distância.
E, por vezes, através do esquecimento.

Não um esquecimento vazio, mas um esquecimento protector.

Porque há dores que uma criança não deveria ter de carregar.

Talvez um dia algumas dessas memórias regressem, transformadas pelo tempo, já sem a mesma carga emocional. Ou talvez permaneçam onde estão, guardadas num lugar profundo da mente onde deixam de ferir.

De qualquer forma, há algo profundamente reconfortante em compreender isto:

O meu filho esqueceu aquilo que o feriu.

E isso significa que a sua mente escolheu a vida, o crescimento e a possibilidade de continuar em frente.

Às vezes, esquecer não é perder uma parte da infância.

É permitir que a infância sobreviva.

O meu filho é um ser humano realmente fantástico. Graças a Deus que tudo está sanado e no caminho certo.

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