"Versão"
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Não vou passar a vida a justificar-me.
Não vou gastar energia a repetir que não sou aquilo que decidiram ver em mim.
Não vou reduzir a minha existência a uma tentativa constante de prova, de defesa, de explicação.
Porque eu não sou linear.
Não sou simples.
Não sou confortável de catalogar.
Sou complexa. Sou caótica, por vezes. Sou ambígua. E isso não é falha — é condição humana.
A vida não nos mantém intactos. Atravessa-nos. Desgasta-nos, reconstrói-nos, ensina-nos de formas que nem sempre escolhemos. E, nesse processo, mudamos. Inevitavelmente mudamos. As experiências moldam-nos, as perdas afinam-nos, os encontros transformam-nos.
Mas há algo que permanece: a essência.
E, mais profundamente ainda, o carácter.
Não aquele que os outros nos atribuem, mas aquele que se revela nas escolhas que fazemos quando ninguém está a ver.
Por isso, não vou disputar versões.
Abraça a tua versão de mim. Fica com aquilo que viste, com aquilo que conseguiste compreender, com aquilo que escolheste reter. Isso diz tanto sobre mim quanto diz sobre ti.
Porque a verdade — ainda que desconfortável — é esta: há pessoas que conseguem extrair o pior de nós. Não porque sejamos apenas isso, mas porque determinadas dinâmicas despertam partes que não vivem à superfície. E isso é difícil de aceitar. É incómodo. É, por vezes, desesperante.
Mas é real.
Há uma ingenuidade perigosa na ideia de que somos apenas luz. Como se a sombra fosse um erro, um desvio, algo a negar ou esconder. Mas como pode existir luz sem contraste? Como pode haver consciência sem confronto com aquilo que nos habita de forma menos nobre?
Somos feitos de camadas. De contradições. De tensões internas.
Não sou monotemática. Não sou previsível. E, certamente, não sou apenas “boazinha”. Sou firme quando preciso de ser, intensa quando me movo por convicção, silenciosa quando escolho observar, e, sim, imperfeita — inevitavelmente imperfeita.
Dentro de mim existe uma multiplicidade.
Tal como escreveu Friedrich Nietzsche, há em cada um de nós uma espécie de multidão interior. E eu reconheço isso em mim com clareza.
Há em mim uma criança — não no sentido ingénuo, mas na capacidade de sentir de forma pura, de me maravilhar, de me emocionar sem filtro, de acreditar, mesmo depois de desilusões. É essa parte que ainda procura verdade, que se aproxima com abertura, que se entrega sem cálculo.
Mas há também um lado antigo, quase envelhecido pela experiência. Um lado que já viu o suficiente para não romantizar tudo, que reconhece padrões, que sabe quando recuar, que entende o peso das escolhas e a irreversibilidade de certos caminhos. É essa parte que observa, que pondera, que protege.
Entre esses dois polos — a criança e o velho — existo eu.
Num equilíbrio imperfeito, mas verdadeiro.
E, no meio disso tudo, há ainda outras versões: a mulher que constrói, a que falha, a que aprende, a que resiste, a que ama, a que se afasta, a que regressa a si mesma quando tudo à volta se torna ruído.
Sou muitas coisas. Em momentos diferentes, com intensidades diferentes.
E aceitar isso não é desordem — é lucidez.
Porque a maturidade não está em ser sempre coerente com uma imagem estática, mas em reconhecer a própria complexidade sem a negar, sem a simplificar para caber na expectativa dos outros.
Não preciso que me compreendam por completo. Nem espero isso.
Mas também não me reduzo a uma única versão.
Sou aquilo que fui, aquilo que sou e aquilo que ainda me estou a tornar.
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