"Brinde"

 Hoje escrevo com um cálice erguido — não de cristal, mas de ironia lapidada — para celebrar essa rara estirpe de iluminados que, apenas com um relance ocular, aferem quocientes de inteligência, inventariam leituras não feitas e diagnosticam ignorâncias imaginárias. Um brinde, pois, aos prodígios da avaliação instantânea: aos que, qual oráculos de esquina, distinguem num franzir de sobrolho aquilo que décadas de estudo, dúvida e trabalho não ousaram ainda concluir.

Brindemos a quem domina a ciência infalível da presunção. Àqueles que, sem o incómodo da escuta ou o fardo da reflexão, distribuem sentenças com a leveza de quem distribui panfletos. São génios do atalho cognitivo: não precisam de diálogo, bastam-lhes sapatos. Não exigem argumentos, contentam-se com o corte do casaco. Não interrogam ideias; examinam etiquetas.

Um brinde especial aos que confundem profissão com profundidade, rendimento com rectidão, estatuto com substância. Para eles, a inteligência é uma rúbrica salarial e a honestidade um extrato bancário. Se tens um cargo sonante, és sábio; se tens uma conta modesta, és suspeito. O espírito humano, essa vastidão complexa, reduzido a um recibo verde ou a um cartão dourado — eis a mais recente inovação epistemológica.

Celebremos também os guardiões da estética moral, que medem carácter pela bainha da saia e credibilidade pelo timbre da voz. A forma de falar torna-se prova de erudição ou indício de ignorância; o modo de vestir converte-se em tratado filosófico ambulante. É admirável como um sotaque pode, aos seus olhos, substituir uma biblioteca inteira.

E brindemos, claro, aos que nada sabem — mas sabem acusar. Que desconhecem — mas diagnosticam. Que jamais se aventuraram no território árduo da dúvida, mas pontificam sobre o saber alheio com a segurança olímpica de quem nunca leu o que critica. Há uma coragem peculiar em afirmar com veemência aquilo que nunca se estudou; uma ousadia quase artística em desqualificar aquilo que se ignora.

Enquanto mulher, enquanto mãe, enquanto cidadã que habita múltiplos papéis sem nunca caber num rótulo único, observo este teatro com um sorriso que oscila entre o espanto e o divertimento. Porque é extraordinário como ainda se espera que a inteligência feminina peça licença, que a opinião venha acompanhada de currículo doméstico ou autorização social. Se falo com convicção, sou altiva; se pondero, sou insegura; se me afirmo, sou incómoda. A régua está sempre pronta — curiosamente, nunca para medir quem a empunha.

Mas acrescento, com a serenidade de quem não precisa de autorização para existir: não me inquieta a opinião mesquinha, impreparada, essa façanha frágil que pretende erguer-se sobre a diminuição alheia. Não me perturba o juízo apressado que desconhece o percurso e, ainda assim, se arvora em veredicto. A minha escrita não nasceu ontem, nem é fruto de súbita inspiração digital. Todos os textos que aqui residem foram escritos por mim — numa cadência por vezes assumidamente arcaica, noutras deliberadamente clássica — sem amparo de auxiliares de escrita ou de inteligências artificiais. Escrevo porque escrevo. Escrevo porque sempre escrevi.

Mantenho um blogue desde 2022, mas a minha presença nas palavras antecede essa data; outras plataformas acolhem a minha voz desde 2014. Antes disso, houve professoras de português exigentes, dessas que não permitem complacências nem atalhos, que sublinham excessos a vermelho e insuficiências com um silêncio ainda mais eloquente. Houve formações, workshops de escrita criativa, horas de leitura, de tentativa, de erro, de reescrita. Houve disciplina — essa virtude pouco glamorosa que raramente aparece nas críticas ligeiras.

E não, o blogue não se sustenta por benevolência algorítmica nem por dependência de redes sociais. Não vive pendurado num perfil de Facebook como se a validação fosse sinónimo de valor. Sustenta-se pela constância, pela autenticidade, pelo compromisso com a palavra pensada e trabalhada. Sustenta-se porque há conteúdo — e o conteúdo, ao contrário do ruído, exige substância.

Talvez seja desconcertante para alguns que uma mulher casada, mãe, com responsabilidades múltiplas, ouse também cultivar pensamento, estilo e densidade. Talvez seja incómodo que a profundidade não peça permissão à agenda doméstica. Mas a inteligência não é monopólio de quem se proclama seu guardião, nem a cultura se mede pela aprovação dos que mais alto falam.

Assim, levanto novamente o meu cálice — agora não apenas em ironia, mas em afirmação tranquila. Continuem a medir inteligências pelo verniz e a pesar caracteres pela aparência. A pressa em catalogar revela sempre mais sobre o catalogador do que sobre o catalogado. E nada expõe tanto a fragilidade intelectual quanto a necessidade de descredibilizar o outro para se sentir superior.

Que nunca me falte a lucidez de escrever com rigor, a coragem de assumir a minha voz e o humor suficiente para sorrir perante a crítica oca. Porque a verdadeira autoridade não se proclama — constrói-se. E constrói-se, sobretudo, no silêncio persistente do trabalho.

Saúde. 🍷

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