"Reinvenção"

 Sou matéria em permanente reinvenção — um território íntimo onde coexistem camadas de tempo, vestígios de encontros e geografias emocionais que me habitam. Não sou apenas o que fui, nem exclusivamente o que sou: sou a confluência subtil entre memória e presença, entre aquilo que deixei partir e aquilo que, conscientemente, escolho acolher.

Há em mim fragmentos de pessoas que chegaram sem anúncio, como quem entra por uma porta aberta do acaso e, sem esforço, encontra lugar. Trouxeram consigo luz, espanto, deslumbramento — e, por instantes ou por eras, tornaram-se parte da arquitectura invisível que me sustenta. Outras houve que partiram. Não por falta de espaço, mas por ausência de permanência. E dessas levo não a ausência em si, mas a lição silenciosa de que nem todos os afectos sabem ficar.

Aprendi, com o tempo, a deslocar o centro de gravidade das palavras para os gestos. As palavras, tantas vezes, são promessas leves — belas, sim, mas frágeis. Já as atitudes têm densidade, têm corpo, têm verdade. É nelas que hoje me reconheço e é por elas que escolho permanecer — inteira, vigilante, consciente.

Carrego dores que não nego, mas que recusei transformar em prisão. Transmutei-as — como quem, com paciência e coragem, converte o peso em impulso. Há risos em mim que nasceram da superação, gargalhadas que ecoam sobre cicatrizes ainda sensíveis, mas já não abertas. Não porque esqueci, mas porque aprendi a não sangrar eternamente pelo mesmo lugar.

A memória, em mim, não é âncora — é bússola. Não esqueço os caminhos que percorri, nem os rostos que neles encontrei. Lembro-me de quem me estendeu a mão com generosidade, mas também de quem a soltou no momento em que mais precisei de firmeza. E, curiosamente, ambos foram mestres: uns ensinaram-me o valor do amparo, outros a urgência da autonomia.

Não procuro unanimidade, nem me seduz a ideia de pertença universal. A maturidade ensinou-me que ser aceite por todos é, muitas vezes, uma forma subtil de se perder de si mesma. Quero apenas os meus — aqueles cuja presença não exige esforço, cuja verdade não se disfarça, cuja proximidade é casa. Pessoas que aquecem, que acolhem, que não competem com o silêncio, mas o compreendem.

O passado, esse lugar tantas vezes romantizado ou temido, é para mim um arquivo vivo — não um destino. Foi nele que me moldei, que me desorganizei e me reconstruí, que caí e reaprendi a erguer-me com mais lucidez. Não vivo lá — mas honro-o. Porque cada fragmento, por mais áspero que tenha sido, contribuiu para a tessitura da mulher que hoje sou: mais atenta, mais perspicaz, menos ingénua — mas ainda capaz de sentir profundamente.

E quando me volto para trás, não o faço com peso, mas com consciência. Agradeço. Pelo que me elevou e pelo que me confrontou. Pelas vitórias que me expandiram e pelas perdas que me ensinaram limites. Agradeço pelos outros — sim — mas, sobretudo, por mim. Pela mulher que resistiu, que se refez, que não se abandonou.

Sou, no fundo, essa síntese imperfeita e bela de tudo o que vivi.

E isso basta-me.

Simples. Assim.

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