"Demasiado"

 Durante demasiado tempo, habitei o lugar da solidez inquestionável — fui estrutura antes de ser pessoa, suporte antes de ser abrigo para mim mesma. Tornei-me o eixo silencioso que não cede, a presença que sustenta enquanto tudo à volta ameaça ruir. E, nesse exercício contínuo de resistência, fui acumulando forças como quem ergue muralhas: altas, firmes, inabaláveis… mas também, inevitavelmente, isoladoras.

A força, quando prolongada para além do necessário, deixa de ser virtude para se tornar hábito. E foi nesse hábito que me perdi por instantes — na ideia de que ceder era falhar, de que abrandar era perigoso, de que baixar a guarda implicava desmoronar. Esqueci, quase sem dar conta, a textura da suavidade. Esqueci que também é legítimo existir sem peso constante nos ombros.

Talvez seja por isso que a gentileza, quando chega, não passa despercebida — atravessa-me. Não como algo que me salva, porque aprendi, com rigor, a sobreviver aos dias densos. Mas como algo que me devolve a uma dimensão esquecida de mim: a possibilidade de não estar sempre em estado de alerta, de não precisar provar, a cada instante, a minha capacidade de suportar.

Há uma inteligência subtil na ternura. Uma espécie de linguagem silenciosa que não exige, não pressiona, não invade — apenas oferece. E nesse gesto despretensioso, quase invisível, reside uma força diferente: a que não impõe, mas acolhe. A que não exige resistência, mas permite repouso.

Para quem viveu tanto tempo a sustentar, os gestos mínimos ganham uma grandeza inesperada. Um cuidado discreto, uma presença tranquila, um olhar que não pede explicações — tudo isso se transforma numa espécie de permissão tácita: “podes parar”. Não porque desistir seja opção, mas porque continuar não exige exaustão permanente.

E é nesse espaço, raro e precioso, que a vulnerabilidade deixa de ser ameaça e se revela como liberdade. Não a liberdade de quem abandona responsabilidades, mas a de quem compreende que não precisa ser indestrutível para ser inteira.

Hoje, reconheço que a verdadeira força não está apenas em resistir, mas em saber quando descansar. Em permitir que alguém, por instantes, segure o peso connosco — ou simplesmente esteja presente enquanto o pousamos.

E, por vezes, é nesse quase imperceptível intervalo de cuidado que reencontro o fôlego necessário para continuar — não como pilar, mas como alguém que, finalmente, também se permite ser sustentada.

E isso, longe de me fragilizar, humaniza-me.

E, estranhamente, fortalece-me ainda mais.

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