"Persona"
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Olá.
Há um talento que, admito, exige prática: esse de chegar leve, sorrir como quem não deve nada a ninguém e revestir cada frase com diminutivos e uma doçura quase infantil — uma espécie de açúcar performativo que tenta convencer que ali existe cuidado. Só que não há. Há cálculo. Há intenção. Há um verniz demasiado fino a tentar esconder uma matéria que não suporta luz direta.
E é curioso como quase resulta.
Quase — porque a incoerência tem uma forma muito própria de se infiltrar. Não grita, não se impõe, mas escapa. Num olhar ligeiramente deslocado, numa pausa milimetricamente fora do tempo, num gesto que não acompanha a narrativa. O corpo não mente com a mesma disciplina com que a boca ensaia. E é aí que tudo se denuncia.
Eu vejo. Não por esforço — por evidência.
Eu ouço. Não por atenção redobrada — por padrão repetido.
Essa simpatia que apresentas não é empatia. É estratégia social. É uma forma elegante de intervir sem assumir o impacto. Dizes sem dizer, feres sem tocar, insinuas sem te responsabilizares. É quase sofisticado — não fosse tão transparente.
E depois há essa curiosidade quase obsessiva pela vida dos outros. Esse interesse que se disfarça de proximidade, mas que, no fundo, é apenas uma fuga bem decorada. Porque, sejamos honestas, quem está verdadeiramente ocupado a construir-se não tem tempo — nem energia — para esse tipo de observação lateral constante.
Mas olhar para dentro exige coragem.
E isso, convenhamos, não se ensaia ao espelho.
Dá trabalho. Não tem público. Não permite essa coreografia confortável onde tudo parece sob controlo. Então é mais fácil comentar, rir, opinar com leveza estudada e distribuir pequenas incisões emocionais embaladas em doçura.
Uma elegância cruel.
Só que há um problema: quem vive assim raramente percebe o próprio peso. Acredita na personagem ao ponto de confundir representação com identidade. E isso é, talvez, o mais inquietante de tudo.
Não te escrevo com raiva. A raiva pressupõe envolvimento — e isso seria dar demasiado valor ao que, no fundo, é apenas previsível.
Escrevo com clareza. Aquela clareza que dispensa dramatizações porque se sustenta sozinha: já se percebeu.
O tom, o padrão, a intenção.
Já não há subtileza que salve o que se tornou evidente.
E talvez seja isso que mais incomoda: não é o que fazes — é a convicção com que acreditas que não se vê.
Mas vê-se. Sempre se vê.
Por isso, fica uma sugestão — não como gesto de cuidado, mas como exercício de lucidez: larga a personagem. Não porque alguém te pede, mas porque já não funciona.
Vive a tua vida sem esse teatro discreto, sem essa necessidade constante de parecer leve enquanto deixas rasto. Sem esse esforço permanente de controlar a perceção dos outros.
Porque, no fim, toda essa construção — esse jogo fino, essa ironia doce, essa presença cuidadosamente calculada — não substitui aquilo que falta: verdade.
E a verdade, ao contrário do que aparentas acreditar, não se adorna.
Suporta-se.
Ainda vais a tempo. Ou não.
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