"Inseto"
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Há momentos em que a realidade se apresenta com um grau de ironia tão refinado que quase dispensa interpretação — não fosse o facto de, por uma questão de rigor intelectual, merecer ser devidamente dissecada.
Deve ser, imagino, profundamente limitador habitar um lugar onde o pensamento não amadurece, onde a linguagem é utilizada como instrumento rudimentar de ataque e onde a intenção precede sempre a consciência. Não diria que é apenas triste — seria simplista. É, sobretudo, revelador.
Hoje, num dos meus locais de trabalho — escolhido, sublinhe-se, com a mesma discrição com que conduzo a minha vida — fui abordada por uma senhora que decidiu, num exercício de coragem questionável e oportunidade inexistente, dirigir-me a palavra num contexto que, por si só, exigiria o mínimo de decência: um velório.
Há algo de profundamente sintomático em quem, perante a dor alheia, escolhe a irrelevância como forma de afirmação. Ignorar o luto para performar uma tentativa de ataque não é apenas falta de sensibilidade — é uma espécie de indigência moral que não necessita de grandes comentários, porque se expõe sozinha.
Aproximou-se com aquela ternura ensaiada que, de tão artificial, quase se torna caricata, e proferiu — com a segurança de quem acredita na própria eloquência — a seguinte sentença:
“És um inseto que se alimenta da luz dos outros.”
Confesso que, por um breve instante, hesitei entre a indiferença absoluta e o interesse quase académico. Não pela força da ofensa — que é, no mínimo, débil — mas pela estrutura da tentativa. Há algo de fascinante em observar alguém investir numa metáfora sem compreender minimamente o alcance do que diz.
Olhei. Sorri.
Não como gesto de complacência, mas como reconhecimento tácito de que estava perante um exercício falhado de agressão simbólica.
E, curiosamente, aceitei o rótulo. Não por submissão, mas por inteligência interpretativa. Porque, se há coisa que distingue quem pensa de quem apenas reage, é a capacidade de ressignificar.
Um inseto, portanto.
Vamos, então, elevar o nível da análise — porque suspeito que não foi feito previamente.
Os insetos são, do ponto de vista biológico, das formas de vida mais resilientes do planeta. Adaptam-se a condições extremas, sobrevivem a tentativas sistemáticas de erradicação, reorganizam-se perante adversidades que eliminariam estruturas mais complexas.
Pisam-nos — persistem.
Queimam-nos — regressam.
Tentam eliminá-los — multiplicam-se.
Não necessitam de aprovação para existir. Não pedem autorização para permanecer. Não se fragilizam perante hostilidade — integram-na.
São, em muitos aspectos, um modelo de resistência silenciosa.
Se a intenção era diminuir-me, houve aqui um desvio conceptual grave. Porque, ao invés de fragilidade, a imagem invocada remete para adaptabilidade, persistência e, acima de tudo, indestrutibilidade relativa.
E, nesse sentido, sim — reconheço-me.
Não na caricatura que tentou construir, mas na essência que, inadvertidamente, expôs.
Sou aquilo que resiste.
Aquilo que se reorganiza.
Aquilo que não depende do olhar alheio para sustentar a própria existência.
E talvez seja precisamente isso que incomoda.
Porque há uma inquietação particular que emerge quando alguém percebe — ainda que de forma difusa — que não tem poder sobre o outro. Que não consegue provocar, desestabilizar, reduzir. Que, apesar do esforço, não produz efeito.
E então insiste.
Mas insistir no vazio é um exercício ingrato.
Porque há uma diferença fundamental entre quem fala para se afirmar e quem observa para compreender. E essa diferença torna-se evidente no momento em que a intenção encontra resistência… ou, pior ainda, indiferença qualificada.
O desprezo — quando sustentado por consciência — não é ausência de resposta. É uma forma superior de resposta.
Não há necessidade de confronto quando a inconsistência do outro já se revelou por inteiro. Não há utilidade em dialogar com quem não constrói, apenas projeta.
E há, sobretudo, uma serenidade inabalável em quem sabe exatamente quem é — com luz e com sombra — e não precisa de se justificar perante tentativas alheias de diminuição.
Porque, no fim, o que ficou desse episódio não foi a frase proferida, mas o contexto em que foi dita.
Num espaço de luto, alguém escolheu a irrelevância.
Num momento de dor, alguém optou pela exibição.
E isso diz tudo.
Quanto a mim — permaneço.
Inteira.
Consciente.
E, ao que parece, inconvenientemente indestrutível.
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