"Sábado"

 Hoje escolho partilhar o dia de ontem — sábado, 28 de março de 2026 — não por necessidade de validação, mas por uma questão de integridade narrativa. Prefiro a clareza assumida à distorção conveniente. Conheço demasiado bem o ruído que nasce quando o silêncio é ocupado por versões alheias, frequentemente intensificadas por intenções que pouco têm de inocentes. E, sim, há algo que afirmo sem rodeios: não tenho tolerância para a perversidade disfarçada de interpretação.

Ontem foi um dia memorável. Não no sentido ruidoso ou exuberante, mas naquilo que verdadeiramente importa: na autenticidade dos afectos, na qualidade das presenças, na coerência entre o que se é e o que se demonstra.

Celebrei — com a minha família — o aniversário de uma mulher extraordinária. E não utilizo o termo de forma leviana. Extraordinária não pelo que possui, mas pela forma como existe. A celebração foi preparada pela filha e pelo esposo, com um cuidado que não se improvisa: um cuidado que nasce do amor vivido, não do amor proclamado. Havia intenção em cada detalhe, mas uma intenção limpa, sem necessidade de ostentação.

Ela estava rodeada de pessoas que, inequivocamente, a estimam. E isso — mais do que qualquer decoração, qualquer música ou qualquer mesa bem composta — é o verdadeiro sinal de uma vida bem construída.

É minha amiga. É minha entidade patronal. E, ainda assim, aquilo que mais a define não é a posição que ocupa, mas a forma como a habita.

Tem uma vida materialmente confortável — disso não há dúvida. E, no entanto, não há nela qualquer vestígio daquela vaidade ruidosa que tantas vezes acompanha quem tem muito e é pouco. Há pessoas que, com um terço do que ela possui, se transformariam em exibições ambulantes de si mesmas, pavões emocionais em permanente necessidade de validação.

Ela não.

Nela há uma sobriedade rara. Uma humildade que não se anuncia, mas se reconhece. Uma generosidade que não calcula retorno. Um altruísmo que não precisa de testemunhas.

É artista. Pinta. Esculpe. Cria.
Mas, mais do que isso, há nela uma arte maior: a de permanecer humana.

Admiro-lhe a frontalidade sem agressividade, a clareza sem arrogância, a capacidade de compreender sem condescender. Admiro a forma como distribui afecto com naturalidade, sem teatralidade, sem esforço de representação.

A festa refletia tudo isso. Música ao vivo — não para impressionar, mas para partilhar. Comida cuidada — não para exibir, mas para acolher. Conversas — verdadeiras, presentes, sem aquele ruído superficial que tantas vezes preenche encontros vazios.

Havia tempo. Havia escuta. Havia presença.

E isso, hoje, é quase um luxo.

Quanto ao chegar — mantenho os meus rituais. Não por medo, mas por escolha consciente. Prefiro a discrição ao cruzamento desnecessário. Vou em horários que me permitem preservar o meu espaço, observo, avalio, e entro com a mesma serenidade com que me retiro do que não me acrescenta. Não há aqui dramatização — há critério.

Porque, no fundo, viver com intenção também é saber onde se está, com quem se está e porquê.

E ontem, sem ruído, sem encenação, sem desvios —
eu estava exatamente onde devia estar.

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