"Grito"
Não me venham com a elegância ambígua do silêncio
como se fosse linguagem suficiente.
O silêncio, tantas vezes, não é profundidade — é fuga com aparência de mistério.
Pergunto:
que valor tem o que não se diz,
se no não-dito cabe tudo —
inclusive a ausência de coragem?
Eu não habito esse território.
Prefiro a palavra exposta,
sem ornamentos que a suavizem,
sem rodeios que a diluam.
A palavra que chega como é —
imperfeita, por vezes dura,
mas inteira naquilo que carrega.
Há quem se proteja no intervalo,
nesse espaço cómodo entre o quase e o nunca,
onde nada se afirma
e tudo se pode negar depois.
Que fiquem.
Eu escolho o risco da clareza.
Sou de olhar firme,
de presença que não se esquiva,
de uma sinceridade que não pede desculpa por existir.
Porque aprendi — não sem custo —
que há feridas limpas que curam
e há silêncios prolongados que apodrecem.
Chamam-lhe excesso,
como se dizer fosse sempre demais
num mundo habituado a insinuar.
Mas o que é claro não agride —
revela.
E o que revela liberta,
mesmo quando desorganiza.
Prefiro o limite dito
ao vazio interpretado.
Prefiro o “não” que fecha portas
ao gesto suspenso que as deixa entreabertas
para nunca mais voltar.
Diz-me o que é.
Ou não digas nada —
mas não me peças depois
que decifre ausências
como se fossem promessas.
Não me responsabilizo
pelo significado do teu silêncio.
Se ele fala,
que o faça com a dignidade de quem assume.
Que rompa.
Que ecoe.
Que se comprometa.
Porque entre o conforto do indefinido
e a exigência da verdade,
eu escolho sempre
o que tem forma, peso e consequência.
Escolho a palavra que corta,
mas constrói.
A verdade que expõe,
mas limpa.
E, sobretudo,
escolho nunca viver
à sombra do que não foi dito.
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