"Carta a quem já não se sente suficiente"

Vem. 

Senta-te aqui um pouco.

Não precisas dizer nada.
Eu sei — há dias em que o mundo pesa, e o coração parece encolher dentro do peito.
Há dias em que o espelho dói e o silêncio grita.
Há dias em que o simples ato de existir já é um esforço.

Vem…
sente o meu abraço.
Não é um abraço de pena, é um abraço de alma — desses que dizem “eu entendo” sem precisar de som.
Acalma-te, respira devagar.
Eu estou a segurar-te na mão.
Estou aqui, mesmo que o mundo te pareça distante.
Não estás sozinho, nunca estiveste.

Encosta a tua cabeça no meu ombro, fecha os olhos por um instante.
Deixa-me colocar a mão, levemente, no teu cabelo —
é o gesto que faria a alguém que amo, é o gesto que também precisava quando o chão me fugiu.
Não para resolver tudo, mas para te lembrar que o amor existe, mesmo quando a vida esquece de o mostrar.

Eu sei.
Já te tentaram convencer de que não eras suficiente.
Já te compararam, diminuíram, ignoraram o teu valor.
Já te fizeram acreditar que para merecer amor precisavas ser mais — mais bonito, mais forte, mais bem-sucedido, mais “algo”.
Mas a verdade é que nunca precisaste ser mais nada além de ti.

Tu és suficiente, mesmo quando duvidas.
Mesmo quando tremes.
Mesmo quando falhas.
Mesmo quando o medo fala mais alto.

Não deixes que o olhar dos outros te convença do contrário.
Não deixes que a indiferença de alguém defina o teu valor.
Há quem não saiba ver, e isso não é culpa tua.
Há quem não tenha aprendido a reconhecer a beleza das almas simples, e isso não te torna menos — apenas te torna raro.

Vem, respira comigo.
Deixa o peito alargar.
Sente o ar a entrar — é o mundo a dizer-te que ainda há tempo.
Tempo para curares, para recomeçares, para acreditares de novo.

Quando o amor é verdadeiro, ele não pesa.
Não humilha.
Não diminui.
Ele faz crescer, faz sorrir, faz sentir paz.
E a paz, meu amor, é a prova mais pura de que o amor está presente.

Já tentaram magoar-te, eu sei.
Mas repara — ainda aqui estás.
Ferido, talvez.
Mas inteiro.
O que te aconteceu não te define; o que fizeste com o que te aconteceu, sim.

E olha — se agora te falta força,
deixa-me carregar-te um pouco.
Não te envergonhes.
Todos, um dia, precisamos ser carregados.
Eu caminho ao teu lado.
A tua dor não me assusta.
As tuas lágrimas não me afastam.
O teu silêncio não me incomoda.

Fica aqui.
Por instantes, apenas.
Enquanto o mundo lá fora corre, aqui dentro podes parar.
Podes respirar.
Podes ser vulnerável, humano, imperfeito.

Sabes o que descobri?
O amor — o amor de verdade — não pede máscaras.
Não exige disfarces.
Não precisa de provar nada.
Ele aceita, acolhe, espera.
É por isso que te quero lembrar: não há nada de errado em sentir demasiado.
O coração que sente muito é o mesmo que ama profundamente — e é isso que te torna diferente.

Não te compares.
Comparar é tirar a alma das coisas.
O teu caminho é teu.
O teu ritmo é teu.
O teu tempo é teu.

E se o amor que tinhas te deixou,
se alguém não soube ver o que valias,
se te magoaram ao ponto de duvidares de ti,
ouve-me bem:
há um amor maior a preparar-se para chegar — o amor que começa em ti.

A beleza chama a atenção, eu sei.
Mas é a paz… é sempre a paz… que faz alguém ficar.
Por isso escolhe ser paz.
Mesmo quando o mundo é ruído.
Mesmo quando a alma dói.

Hoje, deixo-te o meu abraço em palavras.
Um abrigo sem muros, sem exigências, sem julgamento.
Vem, fica um pouco mais.
Prometo segurar-te até voltares a acreditar.
Até o teu coração se lembrar do que sempre soube:
que és digno de amor, de alegria, de descanso,
e que mesmo partido — ainda brilhas.

E se amanhã o medo voltar, lembra-te disto:
eu estou contigo.
A teu lado, em espírito, em presença, em silêncio.
A segurar-te a mão invisivelmente, a lembrar-te que a vida continua —
e que tu, mesmo cansado, ainda és luz.

Encosta a tua cabeça no meu ombro, amor.
Deixa-me ficar assim contigo.
Até o teu coração acalmar,
até o peso abrandar,
até te lembrares —
que nunca deixaste de ser suficiente.

Comentários

  1. A evolução na escrita é notável. O que escreve tem alma, sentimento e muita maturidade. É um prazer para a mente e coração ler cada texto que partilha. Aqui voltei a ter esperança e fé. Continue a escrever a mensagem que transmite sobre os valores, virtudes humanas, é louvável. Os textos de humor negro fazem-nos rir. Obrigado.

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  2. Acredito na evolução constante, como pessoa e das nossas capacidades. Espero ainda evoluir mais, obrigada.

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