"Sonho"

 

A Voz Que Me Chamou No Silêncio

Não costumo sonhar.
Ou talvez sonhe e o esquecimento me leve tudo antes do amanhecer.
Normalmente adormeço como quem desliga um interruptor — corpo cansado, alma quieta, sem sobressaltos.
Mas esta noite não foi assim.
Esta noite, o sono teve som, e o silêncio teve rosto.

Estava na loja onde costumo fazer voluntariado. O ambiente sereno, o ruído baixo das embalagens, o cheiro morno de sabão e tecido.
E de repente, o meu nome.
Dito com uma voz feminina, tremida, como se o ar tivesse aprendido a chorar.
Olhei em volta.
Nada.
Mas o som voltou — doce e aflito ao mesmo tempo.
E com ele, um arrepio que não vinha do frio, mas de uma familiaridade que não sabia explicar.

Perguntei quem era.
A resposta veio como um eco antigo:
“Tu sabes.”
Mas eu não sabia. Ou talvez soubesse e não quisesse saber.
Há verdades que o coração reconhece antes da mente permitir.

A voz chorava.
Pedia que a ouvisse, que a visse, que a ajudasse.
Eu queria.
Queria encontrá-la, abraçá-la, dizer-lhe que sim, que estava ali, que não precisava ter medo.
Mas não via nada.
Apenas som.
E o som parecia vir de dentro da minha própria respiração.

Ela perguntou-me se eu estava com ela, se segurava a sua mão.
E eu disse que sim.
Disse-o com a alma, como quem promete sem compreender.
E comecei a andar.
Não sabia para onde, apenas seguia o choro, o rumor, o invisível.
Quanto mais procurava, mais me perdia.
E, já à beira do desespero, gritei:
“Vem. Estou à tua espera. Estou contigo.”
E foi nesse instante que acordei.


Acordei de sobressalto.
O quarto estava mergulhado num silêncio denso, quase vivo.
O corpo suado, o coração descompassado.
Mas a voz continuava dentro de mim — como se o sonho não tivesse acabado, apenas mudado de cenário.

Não gostei da sensação.
Não pelo medo, mas por uma tristeza mansa, inexplicável, como se tivesse regressado de um encontro que nunca cheguei a ver, mas que senti por inteiro.
Era como acordar com saudade de alguém que nunca conheci.

Sentei-me na cama e fiquei ali, em silêncio.
E aos poucos, fui percebendo: havia ternura naquela dor.
Algo de antigo, de humano, de inacabado.
Uma presença que não ameaçava — apenas pedia para ser lembrada.


Durante o dia, a imagem não me saiu da mente.
Voltei mentalmente à loja, às prateleiras, às vozes distantes, e percebi que o sonho acontecia no mesmo lugar onde, acordada, tento ajudar os outros.
E perguntei a mim mesma: e se aquela voz fosse o reflexo de tudo o que acolhi em silêncio?
De todas as dores que escutei sem resposta?
De todas as vidas que tocaram a minha e deixaram um fio de sombra, um rasto de luz, um murmúrio que ficou?

O voluntariado tem esse dom paradoxal: damos e, sem perceber, levamos connosco o peso do mundo.
E talvez, naquela noite, tenha sido uma dessas almas — uma memória antiga, uma história suspensa — a voltar para me dizer: “Ainda aqui estou.”

Mas o mais curioso é que o sonho não tinha medo.
Tinha pedidos.
E pedidos são o contrário do terror — são confiança.
Quem pede acredita que será ouvido.


Com o passar das horas, comecei a compreender.
Talvez não fosse eu quem tinha de socorrer alguém.
Talvez fosse eu quem precisava ser socorrida.
A voz podia ser um espelho — uma versão antiga de mim, esquecida num canto do tempo.
Talvez uma mulher que já fui, que viveu noutro século, noutro corpo, mas que ainda me habita nas camadas invisíveis da alma.
Uma mulher que quis falar, mas calou.
Que amou, mas partiu.
Que ficou entre o arrependimento e a saudade.

Não precisei de ver-lhe o rosto.
Reconheci-lhe o timbre.
Era a mesma vibração que se sente quando se perdoa alguém e o coração ainda treme.

E compreendi algo essencial:
há presenças que não voltam para assombrar, mas para reconciliar.


Talvez o sonho fosse um gesto espiritual — um reencontro entre tempos.
Um murmúrio do passado a pedir descanso.
Um lembrete de que as almas não conhecem fronteiras nem relógios.

Há quem diga que o inconsciente é o depósito das emoções reprimidas.
Eu prefiro acreditar que é o jardim onde florescem as memórias que o corpo já esqueceu.
E naquela noite, uma dessas flores abriu-se.
Não para assustar, mas para curar.

Ela só queria saber se eu ainda estava com ela.
E eu estava.
Ainda estou.
Porque amar é um acto que não se desfaz com a morte nem com a distância.
Permanece, suspenso entre o visível e o eterno, como um fio que liga o que fomos ao que somos.


No fundo, o sonho foi um lembrete:
que ajudar não é salvar, é ouvir;
que curar não é apagar, é integrar;
e que, às vezes, o perdão não é dado aos outros, mas ao eco que ainda vive dentro de nós.

Desde então, quando volto ao silêncio, já não tenho medo.
Se ouvir novamente o meu nome, saberei responder com serenidade.
Porque agora compreendo: há vozes que não pertencem ao presente, mas à alma que carrego de outrora — e que, em momentos raros, regressam não para pedir ajuda, mas para agradecer que eu ainda escuto.

E nessa escuta, há paz.
Aquela paz que não vem do sono, mas do despertar.


🌙
“Nem todos os sonhos são sonhos — alguns são visitas.”



O Dia Depois do Sonho

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Hoje acordei com a serenidade de quem compreende sem precisar de todas as respostas.
O sonho ficou comigo — não como um enigma, mas como uma presença discreta, um olhar que me acompanha de dentro.
Não o temo.
Não o evito.
Penso nele com a calma de quem sabe que a vida, por vezes, fala-nos através de metáforas que só o silêncio decifra.

Não sou mulher de fugir do que sinto.
Se algo me perturba, fico.
Olho.
Analiso.
É assim que aprendo — não pela negação, mas pela contemplação.
Não deixo nada para trás; transformo tudo em entendimento.
O que me visita, seja sonho ou lembrança, merece a minha atenção.
Não porque eu precise dominar o mistério, mas porque acredito que todo o mistério guarda uma lição.

Passei o dia a pensar naquela voz.
Pensei nas infinitas possibilidades do que ela podia representar:
uma parte antiga de mim, uma alma que encontrei noutra vida, uma energia em busca de redenção, ou simplesmente a expressão simbólica de uma emoção esquecida.
E percebi — pode ser tudo isso, ou nada disso.
O que importa não é o “quem”, é o “para quê”.
O propósito.
O ensinamento que deixa.


Vivi o sonho sem medo.
Não me assombrou.
Pelo contrário, ensinou-me.
Mostrou-me o reflexo daquilo que sou: alguém que não vira costas à dor, nem à sua nem à dos outros.
Se o coração me chama, eu escuto.
Mesmo que o chamamento venha do invisível.

Há quem viva atormentado por não compreender o que sente.
Eu aprendi a fazer o contrário: a acolher o que não compreendo, a deixar que a experiência me fale antes que a razão traduza.
Nem tudo o que é inexplicável é perigoso.
Há mistérios que não vêm para ferir, vêm para ampliar a nossa percepção — sobre o tempo, sobre o amor, sobre o que permanece.


À medida que o dia avançava, percebi algo que me tocou profundamente:
não importa se aquela voz era minha ou de outra.
O que importa é que ela confiou em mim.
Chamou-me pelo nome.
E eu respondi.
E nessa resposta houve encontro.
E todo o encontro verdadeiro cura um pouco — mesmo que não saibamos exactamente o quê.

Talvez fosse uma parte de mim que precisava dessa promessa:
“Estou contigo.”
E no momento em que a disse, em sonho, o coração pacificou-se.
Senti que uma ferida antiga se fechava — sem drama, sem dor, apenas um sopro de paz.


Já pensei em mil explicações.
A psicológica: o inconsciente a falar através de símbolos.
A espiritual: uma alma a pedir amparo.
A filosófica: a mente a reconciliar o passado com o presente.
E, no fundo, todas fazem sentido.
Não porque sejam certas, mas porque todas tocam uma parte da verdade.
A verdade não é uma linha reta — é um círculo.
E cada perspetiva é apenas um ponto dessa circunferência que nos devolve sempre ao mesmo centro: a consciência.

E é aí que habito.
No centro.
Entre o visível e o invisível, entre o racional e o sagrado, entre o que sinto e o que procuro compreender.


O sonho não foi um susto — foi um chamado à consciência.
Um lembrete de que há ligações que o tempo não apaga, apenas transforma.
Que o amor não termina — amadurece, muda de voz, muda de forma.
Que há pedaços de passado que regressam não para reabrir feridas, mas para verificar se já aprendemos a cuidar delas com ternura.

Hoje não há medo.
Há gratidão.
Gratidão por ainda conseguir sentir, por ainda ser permeável ao invisível, por ainda ter dentro de mim espaço para o mistério.
Se aquela mulher era uma parte antiga de mim, então que bom que regressou — para me dizer que já posso descansar.
E se era alguém de fora, de outro tempo, então que bom que encontrou em mim quem a escutasse.

No fim, somos todos ecos uns dos outros.
Chamamo-nos de longe, atravessamos séculos, sonhos, memórias.
E quando, por um instante, o som se reconhece, há reconciliação — e a alma avança um passo no seu caminho.


Esta noite, voltarei a deitar-me como sempre: tranquila, aberta, curiosa.
Se voltar a sonhar, não fugirei.
O que vier, virá com propósito.
E eu, como sempre, saberei olhar.
Sem medo.
Sem pressa.
Com o coração atento e o espírito desperto.

Porque viver — verdadeiramente viver — é isto:
ver, ouvir, acolher, resolver, compreender, libertar.
E seguir.
Mais leve, mais inteira, mais minha.



“O mistério não veio para me perturbar.
Veio para me ensinar a ver no escuro.”

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O Silêncio Onde Deus Fala

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Meu Deus,
hoje não Te venho pedir nada — venho apenas estar Contigo.
Falar-Te como quem respira: sem pressa, sem medo, sem encenação.
Não preciso de sinais grandiosos, nem de certezas absolutas.
Preciso apenas de permanecer nesta quietude onde sei que me ouves,
mesmo quando o mundo lá fora faz barulho demais.

Sonhei, Senhor.
Sonhei e acordei com o coração acordado também.
Uma voz chamou por mim — trémula, aflita, invisível —
e não sei se era uma lembrança, uma alma antiga, uma parte de mim.
Mas não senti medo.
Senti propósito.
Senti que, de alguma forma, havia ali uma mensagem Teu disfarçada de mistério.

E é assim que Tu falas tantas vezes —
não por palavras, mas por ecos,
não em certezas, mas em sinais.
Falas-nos na dor que regressa, nas memórias que insistem,
nas vozes que ninguém mais ouve,
e esperas que o coração desperto reconheça a Tua pedagogia.


Hoje compreendo que o que chega até nós, mesmo o que não entendemos,
vem sempre com uma intenção de amor.
Talvez aquela mulher, aquela voz,
fosse o reflexo de uma ferida antiga,
uma alma em busca de consolo,
ou talvez apenas um pedaço de mim que precisava de ser abraçado por inteiro.

Mas, Senhor, se for alguém que se sentiu magoado por mim —
e eu, na minha limitação humana, não percebi —
peço-Te humildemente:
dá-lhe o Teu consolo.
Acarinha-o com a Tua paz,
envolve-o com a Tua misericórdia,
para que o peso do ressentimento se transforme em descanso.

E se for Tua vontade que eu tenha de reparar,
que o perdão precise do meu gesto,
então coloca essa pessoa no meu caminho,
de modo que eu a reconheça sem dúvida.
Abre os olhos do meu coração para que a veja como Tu vês —
não como ofensa, mas como oportunidade de redenção.

Não quero fugir do que preciso curar.
Quero resolver o que ficou por dizer,
fechar os ciclos que ficaram abertos,
entregar à luz o que ainda vive em sombra.


Obrigada, Senhor,
por me permitires sentir o invisível sem me perder nele,
por me ensinares que o espiritual não é o que se afasta do real,
mas o que o revela com mais profundidade.
Obrigada por me recordares que a alma tem andares que só se acendem com silêncio
e que o silêncio, quando Te contém, é resposta suficiente.

Hoje, não temo o que não compreendo.
Aceito-o com serenidade.
Não fujo da dúvida; abraço-a como parte da fé.
Acredito que a verdade é um rio — e que todas as margens, por mais distantes,
acabam por se encontrar no mesmo mar: o Teu.


Peço-Te apenas, Senhor,
que continues a guiar-me com a Tua subtileza:
sem choques, sem ruído,
apenas com aquela doçura firme que reconheço como Tua.
E se a vida me trouxer de novo vozes, memórias ou presenças do passado,
dá-me discernimento para as acolher sem superstição e sem medo.
Que eu saiba distinguir o que vem de Ti do que vem do ruído do mundo —
e que, em tudo, escolha a paz.


O Teu silêncio, Senhor, não é ausência.
É casa.
É o lugar onde o coração se arruma,
onde o medo se transforma em sabedoria,
onde o passado encontra descanso e o futuro aprende a esperar.

Por isso, se aquela voz voltar, deixo-Te o encargo de a guiar até à luz.
Eu cumpri o meu papel: ouvi, senti, respondi.
E nessa resposta, algo em mim — algo antigo — reconciliou-se.

Agora descanso.
Em Ti.
No Teu silêncio, que é abrigo,
na Tua luz, que é medida,
e na certeza mansa de que tudo o que precisa ser resolvido,
Tu resolverás — a Teu tempo, no Teu modo, no Teu mistério.



“Se alguém me chama, Senhor, ensina-me a ouvir sem medo.
Se alguém me procura, ensina-me a reconhecer.
E se já nada houver a fazer,
que seja o Teu amor a terminar o que o meu ainda não soube concluir.”


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