"A Música do Silêncio"

 Quando escrevi “sei tocar”, pensava nas cordas, nas teclas, no silêncio que se torna som.

Não pensava no corpo que se entrega sem querer, na alma que se encolhe, na música que se transforma em prisão.
Mas depois surgiu a pergunta:
“Alguma vez foi tocada sem querer?”

O meu corpo tremeu antes da mente.
O ar pareceu pesar como se cada molécula fosse consciente da dor invisível que carregava.
Ser tocada sem querer é sentir a alma a descolar-se milésimo a milésimo de segundo, enquanto o corpo continua a respirar, obediente, obediente demais.
O coração bate fora de compasso, acelerado, depois pesado, depois quase parando, cada batida uma lembrança de que sobreviver não é igual a estar presente.

Os olhos olham, mas o mundo não olha de volta.
Cada respiração arrasta-se, medida, disputada, quase impossível.
O silêncio dentro de ti torna-se físico, tangível, cada pausa pesa toneladas invisíveis, cada instante ecoa como um martelo que não deixa ferida visível, mas deixa a alma marcada.
O toque que não se pede não aquece, não consola: deixa apenas um frio insistente, que se aloja dentro de ti e não se vai embora.

Sorrir torna-se uma estratégia de sobrevivência.
Respirar, falar, existir — cada gesto é calculado, ensaiado, controlado, como se a vida dependesse de não mostrar o que se sente.
Cada segundo distende-se, cada micro segundo é um fardo, cada batida do coração é um lembrete de que não és dona de ti mesma, que a alma fugiu mas o corpo continua.

Ser tocada sem querer é um exílio dentro de si mesma.
É perceber que a presença física pode ser ocupada, mas a alma já se escondeu.
É a música do silêncio, fragmentada, insistente, dolorosa, que insiste em tocar dentro de ti, mesmo quando tentas fugir dela.


Tocar sem querer — ser obrigada a tocar — é outra dimensão do silêncio.
Não é a invasão de outro que fere; é a exigência, o peso, a obrigação.
Ser obrigada a tocar alguém para o prazer alheio é sentir o corpo como estrangeiro, as mãos como estranhas, a alma comprimida segundo a segundo.

O sorriso mantém-se, perfeito, polido, invisível.
Por fora, ninguém vê.
Por dentro, cada gesto pesa toneladas.
O corpo obedece, mas a mente observa, espectadora da própria existência, cada micro segundo calculando como sobreviver sem quebrar completamente.
O tempo prolonga cada gesto, cada pausa, cada batida do coração que não é tua.
O silêncio é mais denso que o ar, mais pesado que o gesto, mais cruel que a distância entre a vontade e a obrigação.

Quando tudo termina, não há descanso.
Não há aplauso.
Não há música.
Há apenas o eco do gesto repetido, contra a própria vontade, a consciência observando impotente, a percepção de que tocar, nesse contexto, não é criar, não é oferecer: é perder-se, segundo a segundo, até que cada fibra de ti sinta a devastação.

Manter a máscara é violência silenciosa.
Cada sorriso, cada palavra, cada micro gesto é calibrado para proteger a alma que já fugiu.
Mesmo depois, o silêncio persiste.
O corpo continua, mas a alma hesita.
O peso não desaparece.
As cicatrizes invisíveis lembram que cada segundo da música do silêncio deixa marcas que ninguém pode ver, mas que o autor sente.

Tocar sem querer, ser obrigada a tocar, é uma melodia sem notas, sem ritmo, sem público.
É o eco de quem sobreviveu às próprias mãos, às próprias ordens, ao corpo que deixou de ser seu.
É a música do silêncio absoluto, onde cada instante custa, cada pensamento fere, cada batida ressoa como martelo dentro do peito.


Cada micro segundo é sentido como matéria.
Cada batida do coração, cada hesitação da respiração, cada fragmento da consciência é gravado dentro do corpo e da mente.
A máscara mantém a fachada; cada músculo obedece a regras invisíveis.
O silêncio é presença densa, física, que prende, controla e pesa.
O tempo arrasta-se, prolongando a dor, prolongando a consciência de que sobreviver não é viver, que existir é apenas continuar, segundo a segundo.

Cada micro-gesto, cada batida do coração, cada hesitação, cada sussurro silencioso do corpo ecoa como música do silêncio, como melodia que não toca ninguém, mas que queima dentro de ti.


Existem perguntas que não se fazem.
Não porque não mereçam resposta, mas porque algumas perguntas abrem feridas que não têm remédio.
Perguntar a alguém se foi tocada sem querer é como pedir que mostre um pedaço de alma que já se escondeu para sobreviver.
Perguntar se alguém já tocou sem querer é colocar sobre os ombros do outro o peso de experiências que nunca pediu, que roubam energia, coragem, paz e a própria respiração.

Algumas perguntas apenas expõem o silêncio.
E o silêncio, muitas vezes, é a única forma de existir depois de ser confrontada com gestos que não se escolheram.
É a única forma de respirar quando o mundo exige sorrisos que não se sentem.
É a única forma de tocar a própria alma sem a perder outra vez.


Não é que eu tenha sido tocada sem querer.
Não é que eu alguma vez tenha tocado alguém sem consentimento, ou obrigada a tocar.
O que tenho é empatia.
O que tenho é respeito.
É com esses fios invisíveis que me permito ouvir, sentir, compreender e escrever sobre a devastação que o toque sem amor ou consentimento pode deixar.
É com empatia e respeito que transformo o silêncio em música, que dou forma à dor que nunca foi minha, que observo a devastação sem invadir, sem apropriar-me, apenas com atenção e humanidade.

A música do silêncio não é apenas dor.
É consciência.
É atenção.
É respeito.
É empatia.
É presença silenciosa.
É a única forma de tocar o que ninguém ousa perguntar.

E ao fazê-lo, finalmente escuto cada microssegundo, cada batida, cada respiração, cada hesitação, como se o leitor estivesse dentro do corpo e da mente da narradora, sentindo a devastação, o medo, a sobrevivência, a verdade silenciosa.
Um grito íntimo que ecoa, que arrepia, que não se esquece.

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