"Os Números e as Almas"
Quando iniciei esta aventura — e chamar-lhe “aventura” é quase uma ousadia — não fazia a mínima ideia de onde ela me levaria. Comecei a escrever sem planos, sem ambições, sem o mais leve vislumbre de números ou métricas. Era apenas eu, as minhas palavras e uma necessidade quase biológica de pôr a alma em estado de urgência. E, no entanto, hoje olho para estes números com uma mistura de espanto e incredulidade: 169 809 visualizações ao
longo do tempo, 938 só hoje, 908 ontem, 4 495 neste mês e 18 300 no mês anterior.São números. Sim, apenas números. Mas também são pessoas. São olhares, curiosidades, respirações suspensas diante de uma frase, ou de um desabafo que, por alguma razão misteriosa, ecoou algures dentro de alguém.
Nunca, nem nos meus sonhos mais audaciosos, imaginei alcançar tamanha dimensão. Na verdade, quando comecei, acreditava que talvez ninguém me lesse. Que as palavras cairiam no vazio, engolidas pelo ruído incessante da internet. Enganei-me redondamente — e ainda bem.
Porque cada número tem um rosto invisível. Cada leitura é uma presença silenciosa. Cada mensagem recebida é a prova viva de que há almas a reconhecerem-se naquilo que escrevo. E não há espelho mais belo do que esse.
Não sou escritora — repito-o como quem recita uma verdade obstinada. Eu escrevinho. Escrevinho com o coração em carne viva, com a alma em desalinho e com as mãos muitas vezes trémulas. Coloco em palavras o que outros sentem mas não sabem nomear. Escrevo emoções, vivências, atitudes, silêncios, erros e epifanias. Não busco perfeição, busco verdade — e talvez seja por isso que me leem.
A admiração e a gratidão que sinto ao ver as estatísticas crescerem não cabem em palavras. Porque, de repente, aquilo que era íntimo e quase secreto passou a ser coletivo. Recebo centenas de emails — e não exagero. São vozes de todos os cantos: uns felicitam, outros motivam, muitos apenas querem conversar. Há quem peça conselhos, quem partilhe dores, quem procure abrigo, quem precise apenas de um ombro virtual. É uma torrente de humanidade que me chega, dia após dia, e me lembra porque continuo a escrever.
Foi com enorme satisfação que vi os textos sobre os apócrifos serem acolhidos de forma quase fervorosa. Textos que nasceram da curiosidade, da inquietação e da vontade de ir além do que é dado como certo. Nunca imaginei que reflexões sobre livros esquecidos, omitidos, censurados, pudessem ser tão lidos e relidos, tão debatidos, tão absorvidos. Pessoas escreveram-me a tirar dúvidas, a agradecer, a querer saber mais. Houve quem me dissesse que, depois de ler, foi pesquisar, questionar, refletir. Isso, para mim, é ouro puro.
Os textos sobre fé e religião foram devorados avidamente. E quando digo “devorados”, é literal: li mensagens de pessoas que confessaram ler e reler, anotar, partilhar com familiares, debater em grupos. Houve quem me dissesse que, por minha causa, voltou à igreja — não por imposição, mas por escolha. Que reencontrou Deus, ou a ideia de Deus, de uma forma mais livre, mais consciente. Que tirou as traves dos olhos, como escrevi num dos textos, e deixou de se deixar enganar por falsas santidades. Se há mérito nisso, não é meu — é de quem teve coragem de olhar para dentro.
Os textos sobre a mentira, a injúria e a injustiça tocaram feridas antigas e despertaram reflexões necessárias. Recebi relatos comoventes de pessoas que se reconheceram no que escrevi, que encontraram consolo, que perceberam que não estavam sós. E os textos mais leves — os sobre momentos em família, os passeios, os relatos do quotidiano, as memórias que cheiram a vida vivida — esses, curiosamente, deram alento. Mostraram que a simplicidade ainda tem lugar num mundo que corre depressa demais.
Mas foi nos textos sobre o meu filho, sobre acusações, traição, confiança, liberdade, que vivi a mais profunda comunhão com quem me lê. Quem acompanhou a história do Alexandre sabe do que falo. Chorou connosco, indignou-se, acreditou, rezou, esperou. Senti o calor de mãos invisíveis a segurar-me quando fraquejava. E esse apoio — silencioso, digital, mas absolutamente humano — foi um abraço coletivo que nunca esquecerei. A todos os que estiveram desse lado, que sofreram, que se indignaram, que nos deram força: obrigada.
Claro que também existem os haters. Sempre existirão. São a prova de que a escrita desperta emoções, e há quem não saiba lidar com isso. Tentam ofender, diminuir, rebaixar. Pobres criaturas. Mal imaginam que já desci ao inferno, e não por figura de estilo. E, já agora, fiz amizades lá em baixo. Se for preciso, volto. Tenho lá boas conversas pendentes.
Os números — esses mesmos que tanto fascinam — são, no fundo, apenas a superfície visível de algo imensamente mais profundo. 169 809 visualizações não são apenas cliques. São respirações partilhadas, são emoções que atravessaram ecrãs. 938 hoje, 908 ontem, 4 495 este mês: números que contam histórias. 18 300 no mês anterior — uma multidão silenciosa que, de alguma forma, me escolheu entre milhões de vozes.
E, no entanto, confesso: se fosse apenas uma pessoa a ler-me, ainda assim valeria a pena. Porque nunca escrevi para multidões. Escrevi sempre para uma alma de cada vez.
O que me espanta é a ironia disto tudo: comecei a escrever porque não sabia como calar-me, e agora há quem espere as minhas palavras como se fossem um pequeno farol em dias de nevoeiro. Os textos correm mundo — chegam a países que nunca visitei, a culturas que não conheço. Há quem diga que não entende o que escrevo — e eu rio-me. A escrita não é para ser entendida, é para ser sentida. Quem exige compreensão imediata que leia instruções de um micro-ondas. Eu escrevo para provocar desconforto, reflexão, riso e, às vezes, lágrimas.
Agradeço — profundamente — a cada leitor, cada partilha, cada linha lida. Agradeço os aplausos, as críticas, as dúvidas, as discussões. Agradeço até os silêncios, que também são uma forma de diálogo. Agradeço a quem me lê religiosamente e a quem me lê por acidente. Agradeço aos que me inspiram e aos que me irritam, porque ambos alimentam a escrita.
Continuarei a escrevinhar — com alma, com fé, com raiva, com ternura. Com humor quando posso e com lágrimas quando não há alternativa.
Os números, por maiores que sejam, nunca traduzirão o essencial: a ligação humana invisível que as palavras criam.
E a quem não gosta, a quem torce o nariz, a quem me quer calar — lamento informar:
ainda agora comecei.

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