"Chove. E o Mundo Insiste em Perguntar.( resposta para a Mónica)"
Hoje chove — e há qualquer coisa de simbólico nisto.
Parece que o céu decidiu esvaziar-se como a minha paciência.
A diferença é que a chuva, ao menos, serve para regar; já certos emails servem apenas para testar os limites da educação alheia.
Abro a caixa de entrada do blog e sou recebida por uma enxurrada — não de água, mas de perguntas.
Algumas legítimas, outras… uma mistura de curiosidade e falta de noção.
Aparentemente, escrever tornou-me num confessionário público, e a chuva, cúmplice, achou graça à metáfora.
Minha querida leitora — sim, falo consigo, que escreve de madrugada, a perguntar “mas este texto era sobre mim?”.
Não.
Mas se achou que era, talvez devêssemos refletir sobre o conceito de coincidência.
Eu escrevo.
Escrevo porque gosto, porque observo, porque a realidade é tão fértil que dispensa ficção.
Escrevo sobre o que vejo, o que vivo e o que penso.
E sim, há textos com destinatário, mas sem nome.
Não por cobardia, mas por decência — uma palavra que, ultimamente, parece andar fora de moda.
Quando escrevo sobre virtudes, identifico.
Quando escrevo sobre defeitos, anonimizo.
É um pacto silencioso entre o bom senso e a ironia.
Há quem chame prudência; eu chamo elegância.
O anonimato é o último gesto de cortesia que concedo a quem, francamente, já gastou toda a boa vontade.
E depois há a ideia maravilhosa de que eu passo os dias a “mandar recados”.
Não, minha cara.
Eu não mando recados — eu escrevo textos.
Recado é o que se deixa no frigorífico, ao lado do pão.
Texto é o que se publica depois de pensar, reler e, acima de tudo, ter razão.
Há quem confunda ironia com arrogância — e sinceridade com grosseria.
São as mesmas pessoas que confundem leitura com interpretação.
Gente que lê como quem espia pela janela: não para entender, mas para ver se se reconhece.
E quando se reconhece… ofende-se.
É a culpa a vestir-se de ofendida.
Um espetáculo previsível e, confesso, ligeiramente divertido.
Sabe, eu tenho uma vida.
E quando digo “vida”, refiro-me à versão completa, com casa, marido, filhos, amigos, trabalho, fé, compromissos e a ocasional pilha de roupa que insiste em desafiar a gravidade.
O meu tempo é finito, a minha paciência também, e aprendi a investi-los em coisas que não sejam dramas disfarçados de curiosidade intelectual.
Respondo porque me apetece, não porque devo.
Porque o texto nasce quando a alma está limpa e o humor afiado.
E se há dias em que o sarcasmo me escapa pela ponta dos dedos, é apenas porque há perguntas que pedem ironia como resposta.
A ignorância, quando educada, ainda se corrige; a insistência, quando intrometida, só se ironiza.
Hoje chove.
E enquanto o mundo lá fora se molha, eu seco por dentro.
Seco de paciência, mas cheia de lucidez.
Escrever, afinal, é o meu guarda-chuva — o meu modo de não me encharcar nas tolices do mundo.
Aos que me lêem com humor, obrigada.
Aos que me lêem com dor, desejo-lhes cura.
E aos que me lêem à procura de si próprios nos meus textos… talvez precisem de um espelho, não de um blog.
No fim, é simples:
Quem se reconhece no que eu escrevo, que se reveja.
Quem se magoa, que se pergunte porquê.
E quem me escreve a chover, que saiba —
eu só respondo quando a alma está seca e a ironia de guarda aberta.
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