"Manifesto da Mulher Recordada"
Não sei o que queres de mim.
Nem sei se o sabes tu.
Insistes em pronunciar o meu nome como quem tenta conjurar um feitiço que perdeu o sentido. Recordas-me não como sou, mas como a tua culpa precisou que eu fosse — uma sombra, uma vilã, uma caricatura conveniente.
Mas essa figura que inventaste não existe.
E, se olhares bem, no fundo do que és, sabes que nunca existiu.
Dizem que ninguém faz o mal de propósito.
Que as pessoas erram por ignorância, por medo, por cegueira.
E eu — por carinho, por compaixão, por insistir em ver o lado bom — quero acreditar que é assim.
Mas é depois da tempestade, e só depois, que consigo.
Antes, confesso, vejo uma caricatura de defeitos.
E dói. Dói e sangra.
Porque quando gosto, gosto mesmo.
Sem cálculo, sem estratégia, sem armadura.
Há em mim uma fé feita de ternura e desilusão.
Uma esperança teimosa que resiste mesmo quando tudo parece desabar.
Eu creio — às vezes a medo, outras com raiva — que ainda há bondade nas pessoas.
E creio também que o amor é uma forma de coragem, não de fraqueza.
Sou mulher.
Mulher inteira, que sente demais, que perdoa demais, que tenta compreender antes de condenar.
Mulher que quer acreditar no bem e no divino mesmo quando ambos parecem ausentes.
Sou convidada à santidade — e quero muito.
Mas ainda estou a caminho.
Sou pecadora, e falho. Falho tanto.
Mas volto sempre. Recomeço sempre.
Porque a graça também é isto: cair mil vezes e, ainda assim, continuar a amar.
Por isso escrevo-te, a ti que me recordas:
I. Não serei o espelho da tua culpa.
Não serei o nome que usas para justificar o que não sabes sentir.
II. Acredito na luz, mesmo quando só vejo sombra.
Acredito que há beleza na falha, e verdade na dor.
III. Quando digo que gosto, é real.
Não é distração, não é vaidade. É entrega.
E se me magoas, dói — mas não me destrói.
IV. O meu nome não é um castigo.
É uma memória viva, feita de amor e de luta.
Recorda-o, se o fizeres, com respeito — não como sentença.
V. E lembra-te: o que te inquieta em mim é apenas o reflexo do que ainda não encontraste em ti.
Sou mulher de carne e de fé, de paciência e de fúria, de compaixão e verdade.
Não sou santa, mas caminho.
E nesse caminho, entre o erro e o perdão, entre o riso e o pranto, continuo a acreditar:
O amor é mais feroz que o rancor.
A verdade é mais bela que a perfeição.
A fé é o que resta quando tudo o resto falha.
E se me recordas, que seja com justiça. Recorda em verdade, tudo o que fiz e disse realmente.
Não para me julgar, mas para te reconhecer.
Porque talvez, no fundo, tudo o que queres de mim —
é o que te falta em ti.
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