"O fundo do poço não é o fim"
Dizem que o fundo do poço é o fim, mas eu aprendi que é apenas o recomeço — o ponto onde tudo o que era ilusão se desintegra e o que é verdadeiro começa, enfim, a respirar.
Não há disfarces lá em baixo.
Não há sorrisos de circunstância, nem promessas de ocasião.
No fundo do poço há silêncio. Há dor. Há o eco de tudo o que fomos e o vazio de tudo o que ainda não sabemos ser.
Mas é nesse silêncio cru que a alma, finalmente, se escuta.
Eu já estive lá.
E sei como é.
É um lugar onde o tempo não corre, onde as certezas se evaporam e onde até a fé, por instantes, parece fugir.
Mas é também o lugar onde a verdade ganha corpo — e a força, nome.
No fundo do poço não há espaço para máscaras, só para a essência.
É ali que descobres quem está por amor e quem apenas estava por conveniência.
É ali que aprendes que presença é mais do que estar: é permanecer quando já não há aplausos, quando o cenário desaba, quando só restas tu.
A dor desse lugar é direta, quase brutal.
Ela corta o orgulho como lâmina, arranca o verniz das vaidades e mostra-nos a nós mesmos, nus de desculpas, vazios de fuga.
E é aí que o ego se rende, e o coração — finalmente — se ajoelha.
Porque quando tudo cai, só o essencial fica de pé.
Mas é curioso: é também nesse abismo que nasce a força mais pura.
Aquela que não vem dos músculos, nem da vontade, mas da consciência.
A força de quem olha o nada e escolhe continuar.
De quem, entre lágrimas, ainda encontra coragem para dizer: “Eu não acabei.”
O fundo do poço revela.
Revela o que é real, o que é vaidade, o que é supérfluo.
Revela quem te estende a mão e quem desaparece.
Revela que o que parecia indispensável era apenas hábito.
Revela, acima de tudo, que a tua companhia pode ser suficiente.
E sabes, o mais bonito é que, quando sobes, sobes diferente.
Não levas contigo tudo o que tinhas, mas levas o que realmente te pertence.
Deixas as bagagens do orgulho, o peso das comparações, os ruídos de quem nunca te soube ouvir.
Sobes leve — e mais inteira.
Hoje, olho para trás e percebo que não foi castigo.
Foi treino.
Treino da alma para suportar o mundo com serenidade, para amar com humildade e para agradecer mesmo quando dói.
Porque é fácil ter postura quando tudo corre bem.
Difícil é manter a cabeça erguida quando o chão cede — e continuar a caminhar.
Mas é aí que se vê quem fala e quem age, quem acredita e quem apenas finge crer.
Aprendi que as dificuldades não são maldições. São lapidações.
São as mãos invisíveis de Deus a moldar-nos, a tirar o excesso, a preparar-nos para o que vem depois.
E o depois, acredita, é sempre melhor.
Porque quem já viu o fundo, aprendeu o valor do alto.
Quem já provou a ausência, aprendeu a agradecer a presença.
Quem já sentiu a solidão, entende que o amor verdadeiro não prende, ele acompanha.
Por isso, se estás aí — nesse fundo escuro, sem saber para onde olhar — mantém-te calma.
Não resistas ao processo.
A dor, agora, é o parto de uma nova versão tua.
Usa-a como combustível, transforma a queda em lição e deixa que o silêncio te ensine a escutar.
Honra quem ficou contigo, mas honra ainda mais a tua coragem de não desistir.
Porque o fundo do poço não destrói.
Ele depura.
E quem de lá regressa, regressa mais lúcida, mais forte, mais livre.
Estar no fundo do poço só te anima a olhar para cima.
E é lá, exatamente lá — onde pensavas que tudo terminava —
que Deus te mostra o caminho da tua própria luz.
“Nem sempre caímos para sofrer. Às vezes, é Deus a ensinar-nos a voar mais leve”
Tecehistorias (Marisa)
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