"Se soubéssemos!"

Se a vida viesse com data de validade impressa — discreta, no canto inferior do destino — talvez acordássemos diferentes. Talvez trocássemos as urgências vazias por prioridades cheias de alma. Talvez percebêssemos que o relógio não é inimigo, mas mestre severo: ensina sem avisar, corrige sem piedade.

Porque se soubéssemos quando tudo termina, abraçaríamos com mais força. Não esperaríamos pela ocasião perfeita — porque descobriríamos que a perfeição é apenas a desculpa favorita de quem tem medo de viver. Amaríamos sem negociações, sem cálculos, sem medo de nos desmanchar. O orgulho, esse casaco pesado que vestimos para nos protegermos, tornar-se-ia insuportável — e cairia, enfim, ao chão.

Se soubéssemos o fim, talvez disséssemos mais “fica” e menos “até logo”. Mais “perdoa-me” e menos “eu tenho razão”. Talvez parássemos de medir sentimentos, como quem raciona o ar que respira — e respirássemos fundo, até doer de tão vivo.

Mas o tempo é um artista misterioso.

Passa à nossa frente com a arrogância de quem sabe que ninguém o pode deter. Passa mesmo quando insistimos em não passar com ele. E tudo aquilo que adiamos — o abraço, a conversa, o beijo, o café marcado para “qualquer dia” — evapora-se. Oportunidades não são eternas. Pessoas também não.

E então? O que é que fazemos com isto?

Fazemos agora. Sentimos agora. Vivemos agora.

Que não falte coragem para tocar o que nos tocar. Para abrir os braços quando o instinto diz para fechar. Para chorar quando a alma pedir água, para rir quando a alegria romper por dentro. Que saibamos dizer o que importa enquanto ainda importa — antes que o silêncio cole a porta.

Que a vida não seja apenas um arquivo de dias gastos, mas uma antologia de momentos inteiros, sentidos até ao limite da existência.

Porque quando a noite derradeira chegar — e ela chega, sempre chega — não serão os troféus da vaidade que nos hão-de confortar. Não será o saldo bancário, o carro novo, a selfie perfeita. No inventário final, são as mãos que segurámos, as gargalhadas partilhadas, as lágrimas que alguém nos enxugou, o amor que deixámos aceso no peito de quem fica.

O resto… o resto é pó. E o vento, esse grande coleccionador de nadas, encarrega-se de o levar.

Por isso, antes que o tempo nos olhe de volta com aquele silêncio que já não oferece retorno, façamos isto valer. Façamos da vida o que ela é: urgência de sentir, provisória, indomável, preciosa.

Que o dia do fim — desconhecido, invisível, inevitável — seja apenas o fecho natural de uma história vivida com todas as páginas escritas, sem capítulos censurados pelo medo.

E que, quando o derradeiro suspiro nos convidar à eternidade, possamos sorrir com a suave arrogância de quem amou sem medidas…

…e espalhou luz suficiente para continuar a viver nos outros.

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